Pular para o conteúdo

EUA avaliam sanções à Argélia pela compra do Su‑57E sob a CAATSA

Mãos de pessoas assinando documento com carimbo vermelho, miniatura de avião e peças de xadrez em mesa com bandeiras e mapa m

Os Estados Unidos analisam a possibilidade de impor sanções à Argélia após relatos de que o país do Norte da África teria encomendado discretamente um lote do Su‑57E, o caça furtivo mais avançado da Rússia - um movimento que pode colocar em risco uma importante tentativa de reaproximação diplomática.

O acordo discreto da Argélia por caças furtivos russos

O caso começou a ganhar contornos em outubro, quando ordens internas de produção da gigante russa de defesa Rostec foram vazadas pelo coletivo de hackers Espelho Negro. Os papéis pareciam confirmar que a Argélia havia firmado contrato com a Sukhoi para doze caças Su‑57E ("Criminoso") e quatorze bombardeiros táticos Su‑34 ("Zagueiro").

Do lado argelino, não houve qualquer manifestação pública: nem coletiva, nem comunicado oficial, nem mesmo uma negativa. Ainda assim, declarações vindas da Rússia deram a entender, com pouca margem para dúvida, que um novo cliente externo já estaria recebendo aeronaves.

Executivos do setor aeroespacial russo disseram que dois caças Su‑57E já tinham sido entregues a um “parceiro estrangeiro” não identificado e afirmaram que o cliente estava “satisfeito”.

Em novembro, Vadim Badekha, chefe da United Aircraft Corporation (UAC) - conglomerado que inclui a Sukhoi - afirmou que as duas primeiras aeronaves já estavam em serviço operacional fora da Rússia. Ele evitou revelar o país, mas analistas de defesa rapidamente apontaram a Argélia como o comprador mais provável, considerando o histórico de aquisições russas e negociações recentes.

Por que isso importa para Washington

No papel, a relação entre EUA e Argélia vinha aquecendo. Argel tem buscado sinalizar boa vontade a Washington, especialmente enquanto tenta se reposicionar diplomaticamente entre grandes potências e administrar a rivalidade tensa com o vizinho Marrocos.

Em novembro, o embaixador da Argélia nos Estados Unidos, Sabri Boukadoum, adotou um tom confiante durante uma apresentação no Stimson Center, centro de estudos sediado em Washington.

“Não há limite para a nossa cooperação bilateral. Estou muito otimista”, disse o embaixador argelino a uma plateia nos EUA no outono passado.

Essa mensagem positiva, porém, contrasta com o clima dentro do Departamento de Estado, onde o aprofundamento dos laços militares da Argélia com Moscovo é visto como um problema em crescimento.

Autoridade dos EUA sinaliza possíveis sanções

Numa audiência perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado, Robert Palladino, diretor do Escritório de Assuntos do Próximo Oriente no Departamento de Estado, confirmou que o acordo do Su‑57 está sob análise.

Ele mencionou que há cooperação ativa com Argel em áreas de interesse comum, mas deixou claro que o contrato do caça russo entra numa categoria diferente.

A compra do Su‑57 é vista por Washington como “problemática” e um exemplo do que os EUA pretendem “se opor” com todas as ferramentas diplomáticas disponíveis.

Entre essas “ferramentas” estão sanções previstas na lei Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act (CAATSA), de 2017 - um instrumento legal norte-americano criado para punir transações relevantes de armamentos com o setor de defesa da Rússia.

CAATSA: a arma legal por trás da ameaça

A CAATSA virou o mecanismo preferencial de Washington para pressionar países que consideram grandes compras de armas russas. Ela autoriza o governo dos EUA a impor penalidades financeiras e políticas a entidades estrangeiras que assinem contratos relevantes com organizações russas de defesa ou de inteligência.

  • Alvo: Estados e empresas que comprem equipamentos militares russos em transações consideradas significativas
  • Ferramentas: restrições financeiras, proibições de exportação e limitações à assistência dos EUA
  • Objetivo: reduzir a receita e a influência externa da indústria de armas russa

A pressão norte-americana já alterou diversos acordos de grande valor. Egito e Indonésia recuaram de planos para adquirir caças Su‑35 depois de Washington indicar que penalidades da CAATSA estavam sobre a mesa.

Até agora, dois países sentiram plenamente o impacto: a China, por comprar aeronaves de combate e sistemas de mísseis russos, e a Turquia - membro da OTAN -, que foi retirada do programa do F‑35 após adquirir o sistema de defesa aérea S‑400, também russo. A Índia, outro grande cliente de armamentos da Rússia, em grande medida escapou de sanções por causa da sua rivalidade estratégica com a China e do seu papel crescente nos planos norte-americanos para o Indo‑Pacífico.

O que torna o Su‑57E tão sensível

O Su‑57 ("Criminoso") é o caça de quinta geração emblemático da Rússia. A variante voltada à exportação, o Su‑57E, foi concebida para atrair países que querem tecnologia de ponta, mas ficam de fora de programas furtivos ocidentais - como o F‑35 dos EUA.

Característica Su‑57 “Criminoso” (aproximado)
Peso máximo de decolagem 35,000 kg
Comprimento / envergadura 19.8 m / about 14 m
Velocidade máxima Up to Mach 2.4
Teto de serviço Around 19,000 m
Raio de combate Roughly 2,150–3,500 km
Transporte de armamento 4 internal bays, 6 external hardpoints

As versões na Força Aérea russa trazem radares avançados em bandas L e X e podem empregar mísseis de cruzeiro de longo alcance, como o Kh‑69, o que transforma a aeronave tanto num caça de superioridade aérea quanto numa plataforma de ataque profundo.

Para a Argélia, a incorporação do Su‑57E e do Su‑34 representaria um salto relevante numa força aérea que já depende fortemente de equipamento russo, incluindo caças Su‑30 e vários sistemas de defesa aérea. Também seria um sinal inequívoco de que Argel pretende continuar como um dos principais parceiros de segurança de Moscovo no Norte da África.

Tensões regionais e o fator Marrocos

As preocupações de Washington não se limitam ao equipamento em si ou ao dinheiro que flui para a Rússia. A escolha do fornecedor pela Argélia influencia o equilíbrio de poder no Magrebe, sobretudo no impasse de décadas com o Marrocos em torno do Saara Ocidental.

No seu primeiro mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, apoiou Rabat de forma mais explícita, endossando a reivindicação marroquina sobre o Saara Ocidental como parte de um pacote diplomático mais amplo. Ao mesmo tempo, o seu governo tentou negociar um entendimento mais abrangente entre Argélia e Marrocos, numa tentativa de reduzir a rivalidade.

Sob essa ótica, uma frota argelina de caças furtivos produzidos pela Rússia parece afastar Argel do tipo de alinhamento com a política norte-americana que Washington esperava. E sanções ao abrigo da CAATSA podem alimentar o nacionalismo na Argélia, empurrando o país ainda mais na direção de Moscovo e, possivelmente, de Pequim.

Como sanções da CAATSA poderiam atingir a Argélia

Se o governo dos EUA concluir que o contrato do Su‑57E é uma “transação significativa”, há várias alternativas. Elas não significam automaticamente um colapso total das relações, mas podem complicar desde operações bancárias até acordos de tecnologia.

Medidas possíveis incluem:

  • Restrições a transações com determinadas entidades de defesa argelinas
  • Limites ao acesso a licenças de exportação dos EUA para tecnologias de uso dual ou sensíveis
  • Barreiras ao financiamento internacional que envolva instituições dos EUA
  • Sinalização política que desestimule novas operações de empresas ocidentais de defesa ou energia

A Argélia, que depende fortemente de exportações de hidrocarbonetos e frequentemente recorre a bancos internacionais para gerir receitas de energia, teria de medir com cautela esse risco financeiro. Mesmo sanções direcionadas podem aumentar o custo de captação e afastar investidores mais conservadores.

Termos-chave e cenários pela frente

Para quem acompanha o debate, alguns conceitos aparecem o tempo todo. O principal é a CAATSA: uma lei dos EUA que conecta a política para Rússia, Irã e Coreia do Norte ao ameaçar sanções secundárias contra parceiros que fechem grandes negócios com esses países - em especial nas áreas de defesa e inteligência.

Outro termo recorrente é “transação significativa”. Não há, publicamente, um valor exato em dólares que a defina, o que dá margem de manobra a Washington. Autoridades avaliam o tamanho do acordo, o tipo de equipamento e o impacto político mais amplo. Um lote de caças furtivos de última geração, claramente, fica perto do topo dessa escala.

Daqui para a frente, há diferentes trajetórias possíveis. Os EUA podem formalizar a designação sob a CAATSA, mas manter sanções bem delimitadas para evitar uma ruptura maior. A Argélia, por sua vez, pode tentar obter dispensas ao argumentar que desempenha um papel de estabilização no Sahel e no Mediterrâneo e que isolá-la daria ainda mais alavancagem à Rússia e a outros rivais.

Existe também um caminho intermediário, em que Washington demonstra forte reprovação sem acionar de imediato penalidades severas, apostando que Argel reavalie futuras encomendas à Rússia. Nesse cenário, a Argélia poderia manter o acordo do Su‑57E já em andamento, mas diversificar compras futuras - por exemplo, ampliando a aquisição de equipamentos europeus para equilibrar o portfólio.

Para planejadores de defesa em países menores, o caso argelino expõe um dilema crescente. Aeronaves russas de alto desempenho podem ser mais baratas e mais acessíveis do que equivalentes ocidentais, sobretudo quando os controlos de exportação dos EUA são rígidos. Porém, cada compra desse tipo hoje vem com o risco de reação financeira e diplomática norte-americana, com efeitos que podem se espalhar para comércio, investimento e até a política interna.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário