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Câncer de ovário: no Dia Mundial do Câncer do Ovário, garantir equidade no tratamento

Médica conversa com paciente segurando documentos, com imagem de exame em tablet na mesa em consultório.

O que alguém mais quer ao receber um diagnóstico oncológico é algo direto e profundamente humano: ter acesso ao melhor tratamento possível, para ganhar tempo de vida e manter qualidade. No câncer de ovário, porém, esse desejo bate de frente com uma realidade dura. Trata-se de um dos cânceres ginecológicos mais graves, muitas vezes identificado quando já está avançado, e com uma das maiores taxas de mortalidade entre os cânceres que atingem mulheres.

Convivo com essa doença e, como presidente de uma associação voltada aos cânceres ginecológicos, conheço de perto o peso de ouvir esse diagnóstico. É tentar decifrar exames e relatórios difíceis, lidar com um sistema de saúde fragmentado e, ao mesmo tempo, buscar a segurança de que se está recebendo o melhor cuidado disponível - algo que nem sempre é simples de confirmar.

Diagnóstico tardio no câncer de ovário e sinais de alerta

Um dos pontos que mais precisam mudar com urgência é o diagnóstico tardio. Como os sintomas são pouco específicos e não existe um método de rastreamento confiável e eficaz, a maioria dos casos de câncer de ovário acaba sendo detectada em estágio avançado, o que limita fortemente as opções de tratamento e influencia os resultados.

Por isso, aumentar o conhecimento sobre sinais de alerta, tanto entre as mulheres quanto entre profissionais da atenção primária à saúde, é uma responsabilidade compartilhada - e pode significar a diferença entre descobrir cedo e enfrentar uma doença já avançada.

Desigualdade no tratamento: local, equipe e centros de referência

A desigualdade aparece também em outras frentes. No câncer de ovário, os desfechos variam muito conforme o lugar onde a mulher é tratada e conforme quem conduz esse cuidado. Como há um número elevado de hospitais realizando essas cirurgias, nem todas são feitas por equipes realmente especializadas. E isso traz impactos bastante concretos: no tratamento que vem depois, na resposta às terapias e, no fim das contas, nos resultados em saúde.

Conversando todos os dias com mulheres que receberam esse diagnóstico, essa realidade leva a uma pergunta simples, mas incômoda: como falar em tratamentos cada vez mais sofisticados se, antes de tudo, não garantimos que todas sejam acompanhadas e operadas no lugar certo, pela equipe certa? E por que ainda não existem, em Portugal, centros de referência para os cânceres ginecológicos?

A “loteria do código postal” não pode definir quem consegue chegar ao melhor tratamento. É também por isso que defendo que a ginecologia oncológica seja reconhecida como uma especialidade própria - e não apenas como uma subespecialidade da ginecologia e obstetrícia. A complexidade desses cânceres, das cirurgias e das decisões terapêuticas exige formação específica, experiência acumulada e equipes altamente diferenciadas.

Hereditariedade (BRCA1/BRCA2), acesso a testes e direito à informação

Outra questão igualmente central envolve a hereditariedade. Uma parcela significativa dos cânceres de ovário está ligada a mutações genéticas herdadas, em especial nos genes BRCA1 e BRCA2. Além de trazer benefícios para a paciente, os testes genéticos são decisivos para escolher as terapias mais adequadas e podem ser fundamentais para que familiares de primeiro grau tomem decisões informadas sobre a própria saúde.

Em Portugal, o acesso ao aconselhamento genético e aos exames necessários ainda é desigual e, sobretudo, demorado. Eles não podem ser tratados como um complemento opcional: precisam chegar a todas as mulheres com esse diagnóstico.

A informação também é uma forma de equidade. Na MOG, vemos que muitas mulheres sentem receio de fazer perguntas aos médicos. Muitas nem sabem que podem pedir esclarecimentos ou que têm o direito de participar de maneira informada das decisões sobre o próprio tratamento. Algumas chegam a pensar que solicitar uma segunda opinião pode ser malvisto.

É inegável que o letramento em saúde não se distribui de forma igual - e que essa desigualdade tem consequências clínicas reais. Traduzir a ciência para a vida concreta de cada mulher, construir redes de apoio entre pares e defender direitos com conhecimento sólido é o que as associações de pacientes fazem, todos os dias.

As decisões terapêuticas também precisam considerar a pessoa como um todo. Para algumas mulheres, a prioridade é viver mais; para outras, é viver melhor; e, para muitas, é buscar um equilíbrio entre as duas coisas. Reduzir toxicidades e preservar autonomia e qualidade de vida são objetivos legítimos e devem entrar na tomada de decisão como parte essencial do cuidado.

Num momento em que marcamos o Dia Mundial do Câncer do Ovário, é importante reconhecer os avanços científicos concretos, as novas terapias disponíveis e a esperança real que elas representam. Mas essa esperança só se torna transformadora quando alcança todas as mulheres, independentemente de onde moram, do hospital em que são tratadas ou do seu nível de letramento em saúde. Esse caminho se constrói em rede - entre ciência, serviços de saúde e associações de pacientes - para que nenhuma mulher fique para trás.

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