O que parece uma história improvável de quintal é, para Tom Gozney, ao mesmo tempo dor e salvação. Hoje à frente de uma fabricante premium de fornos de pizza, ele chegou ao fundo do poço no começo dos 20 anos: dependente de álcool e drogas, sem qualquer plano de futuro. A reviravolta veio justamente com um forno a lenha construído por ele no jardim - uma ideia que não só o recolocou nos trilhos, como já motivou centenas de pessoas a pedir demissão e ganhar a vida fazendo pizza.
Do colapso à clínica de reabilitação
Aos 21 anos, Tom Gozney vai parar em uma clínica de reabilitação. Álcool, drogas, festas - a rotina já apontava para um crash. A internação vira o ponto de virada: ali ele decide recomeçar do zero. Nada de bebida, nada de drogas; no lugar disso, um foco radical em algo concreto.
De volta para casa, ele começa a construir. Não porque tivesse um plano de negócios, mas por uma necessidade quase urgente de recuperar estrutura e sentido. No jardim, ele assenta tijolo por tijolo e levanta o primeiro forno a lenha. Visualmente, como ele mesmo admite, aquilo era um desastre: um “trambolho” que não levaria prêmio de design algum. Só que funcionava - e, mais importante, atraía gente.
Amigos aparecem, eles assam pizza, conversam, dão risada. As noites ao redor do fogo criam um novo senso de comunidade. Para Gozney, esse ritual vira apoio num período frágil depois da terapia.
Cozinhar com fogo substitui para ele o “barato” do vício - e se torna o motor de uma identidade totalmente nova.
Uma marca nascida no próprio quintal
A brincadeira no jardim rapidamente deixa de ser só passatempo. Gozney não é engenheiro formado, mas mergulha no assunto com teimosia. Ele devora livros técnicos sobre propriedades térmicas de cimento e argila, entende como o calor se movimenta dentro do forno, por onde escapa e onde fica retido.
Com um empréstimo de 5.000 libras da mãe, ele dá o próximo passo. Metade do valor vai para uma forma de fibra de vidro; ele desenha algo como um iglu de concreto e, a partir daí, chega ao primeiro produto realmente vendável: um forno de pizza compacto, moldado em peça única. O modelo de entrada, o “Primo”, custa 499 libras e mira pessoas que querem assar em casa uma pizza no padrão de restaurante.
Ao mesmo tempo, o jovem fundador trabalha em soluções para o uso profissional. Ele registra a patente de um sistema de forno que pode ser instalado bem mais rápido e por um custo menor do que os tradicionais fornos de pedra. O visual com pegada de terracota agrada donos de restaurantes - e empurra a pequena empresa para um nicho de mercado que, de repente, fica grande e promissor.
Dos eventos rurais à alta gastronomia
Em 2011, Gozney ainda está em feiras agrícolas: monta o site com as próprias mãos, embala os fornos, dirige até os clientes. Cinco anos depois, sob o nome “Stone Bake Oven Company”, ele já fornece para redes de pizza badaladas no Reino Unido, como Franco Manca e Pizza Pilgrims.
Quando ele reúne as atividades sob uma marca única, nasce o nome que hoje é conhecido globalmente: Gozney. A empresa se torna a primeira do Reino Unido nesse segmento a receber aprovação do órgão Defra para uso em zonas com controle de fumaça - um fator decisivo para crescer em cidades densamente povoadas.
O salto para o grande público vem em 2016, com um produto alinhado ao espírito da época: um forno leve e portátil, com base de pedra, feito para a mesa, o jardim ou o foodtruck.
O pequeno forno da Gozney que muda carreiras
O “Roccbox” é divulgado como o primeiro forno de base de pedra verdadeiramente móvel do mundo. Ele atinge temperaturas de forno profissional, mas permanece compacto e fácil de transportar. Essa combinação acerta em cheio dois movimentos ao mesmo tempo: o boom do street food e o estilo de vida ao ar livre.
Logo no primeiro mês após o lançamento, a Gozney fatura cerca de 900.000 libras com o Roccbox. O mais curioso é o efeito em cadeia: segundo a empresa, por volta de 400 compradoras e compradores já largaram empregos tradicionais para vender pizza em tempo integral - usando um ou mais desses fornos portáteis.
De um equipamento de quintal, ele vira para centenas de pessoas a chave de uma nova vida profissional - e, muitas vezes, da autonomia como negócio próprio.
Internamente, Gozney chama esse grupo de “Coletivo Gozney”: gente que troca a estabilidade (e frequentemente o tédio) do emprego fixo por um recomeço como pizzaiolo em mercados, festivais ou pequenos pontos. Para ele, são “pioneiros do movimento da pizza”.
Quem realmente faz a mudança?
Os perfis de quem entra nessa transição são surpreendentemente variados. De acordo com informações do entorno da empresa, aparecem, entre outros:
- Pessoas de escritório que cansaram de horas extras e reuniões
- Cozinheiras e cozinheiros que querem colocar ideias próprias em prática
- Quem vive uma crise de meia-idade e busca algo “de verdade” para fazer com as mãos
- Jovens empreendedores de comida que começam com um orçamento inicial baixo
O atrativo é claro: não é preciso montar uma cozinha de restaurante que custa milhões. Com um forno confiável, um pequeno reboque ou uma barraca e uma boa receita, dá para formar um modelo de negócio viável - ao menos em escala local.
Explosão de faturamento durante a pandemia
Enquanto muitos setores desabam na fase mais dura da Covid-19, a Gozney vive um pico forte de crescimento. Em 2019, o faturamento era de 5,2 milhões de libras. Cinco anos depois, já chega a 72 milhões de libras - um salto de múltiplas vezes.
O motivo é direto: lockdowns, restaurantes fechados e, em contrapartida, um enorme impulso do “vamos caprichar em casa”. Cozinhar do lado de fora vira hobby, substitui a ida ao restaurante e funciona como ponto de encontro social em círculos menores.
Os produtos da Gozney encaixam perfeitamente nesse novo padrão de lazer. Sem poder viajar, muita gente recria um clima de férias na própria varanda. Pizza quente, chama aberta, uma taça de vinho - pequenas escapadas em meio ao estado de exceção.
Hoje, a empresa tem cerca de 120 funcionários na China, na Austrália, na Europa e nos Estados Unidos. Aquilo que começou como um “trambolho” no jardim virou uma marca global de outdoor, vista em muitos países como referência premium.
Mais do que tecnologia: quando o design passa a decidir a pizza
Um ponto decisivo dessa trajetória é a obsessão de Gozney por design. Como o primeiro forno era feio, isso aparentemente o marcou: desde então, ele mexe em cada novo projeto até que pareça uma peça estilosa de mobiliário - e não um equipamento industrial.
Essa escolha traz retorno. Hoje os fornos de pizza não ficam escondidos num canto; eles ocupam o centro da varanda ou do salão aberto do restaurante. Viram parte do espetáculo. Quanto mais bonito o forno, mais forte a sensação de: “Eu também quero isso em casa.”
| Característica | Fornos antigos | Modelos modernos da Gozney |
|---|---|---|
| Aparência | Pragmática, rústica | Formas arredondadas, cores definidas, com cara de sala de estar |
| Peso | Pesado, muitas vezes fixo | Leve, transportável, móvel |
| Público-alvo | Principalmente restaurantes | Profissionais e amadores exigentes |
| Onde usar | Cozinha fixa, restaurante | Jardim, varanda, foodtruck, ponto pop-up |
Para muita gente, o forno já é um símbolo de estilo de vida. Aparece com frequência no Instagram, vira destaque em festas ou o “coração” de um foodtruck. Com isso, a Gozney consegue algo típico de marcas de moda ou tecnologia: transformar um item funcional em objeto de status.
O que futuros profissionais de pizza precisam considerar
A promessa de sair da rotina com um forno bonito é sedutora. Só que, no mundo real, continua sendo um negócio sério - com risco e conta para fechar. Quem quer dar uma chance à própria carreira na pizza deve avaliar alguns pontos:
- Escolha do ponto: faz mais sentido um foodtruck em frente a um home center, em feiras semanais ou, à noite, perto de bares? Rodadas de teste ajudam.
- Cálculo de custos: aluguel do espaço, ingredientes, energia, equipe - tudo precisa entrar no preço unitário de cada pizza.
- Licenças e regras: exigências de higiene, registro de atividade, e possivelmente autorizações específicas para chama aberta.
- Identidade e lembrança: um topping característico, ingredientes locais, um forno chamativo - algo tem de ficar na memória.
Quem ignora esses aspectos pode se esgotar rapidamente - emocional e financeiramente. Ainda assim, o que se vê ao redor da Gozney sugere que, com capital inicial relativamente controlado, dá para construir uma renda sustentável quando o conceito e o local são bem escolhidos.
Por que o fogo exerce tanta atração
Um detalhe se destaca na história: a mudança não começa com um modelo de negócio, e sim com o fogo em si. Chamas abertas, pedra incandescente, cheiro de fumaça - tudo isso cria uma atmosfera quase ancestral. As pessoas se aproximam, observam, conversam com desconhecidos e esperam com paciência a própria pizza.
É essa simplicidade que vira o diferencial. Ao ficar diante do forno quente, dá para sentir na hora se aquele trabalho “encaixa”. Não existe open space, nem tela, nem planilha: existe calor, trabalho manual e contato direto com clientes. Para muitos, é exatamente esse apelo que torna possível abandonar o emprego seguro no escritório.
A biografia do próprio Gozney reforça a simbologia. Um homem que saiu de uma dependência que ameaçava sua vida encontra na força controlada do fogo um novo eixo de estabilidade. E o fato de seus fornos agora permitirem que outras pessoas também redesenhem a própria trajetória soa como um eco dessa experiência inicial.
O que a história da pizza ensina para outros setores
Esse caminho não serve apenas como uma lenda romântica de fundador. Ele deixa claro como certas combinações podem funcionar:
- um produto com carga emocional (fogo, pizza, comunidade),
- um design forte e fácil de reconhecer,
- uma solução técnica que resolve problemas reais (rápida, quente, móvel),
- e uma comunidade que preenche o produto com histórias.
O mesmo padrão pode ser aplicado em outras áreas: café, cerveja artesanal, street food e até em ofícios manuais ou pequenas manufaturas. Quem constrói um equipamento ou ferramenta capaz de ajudar pessoas a reorganizar a própria rotina entrega mais do que faturamento. Oferece uma identidade - um papel no qual dá para entrar.
Se toda história de sucesso pode se repetir, ninguém garante. Mas o percurso de Tom Gozney mostra o quanto um produto pode ganhar força quando junta resgate pessoal, exigência de design e o estilo de vida de uma geração - e quando, no fim, não é só pizza que chega ao prato, e sim para muitos uma vida nova.
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