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Como o chocolate com pistache Dubaï style virou febre no TikTok, Lindt e Lidl

Duas mulheres com carrinho de supermercado, uma segurando embalagem de castanhas e outra usando celular.

O que até pouco tempo era um “achado” quase impossível de encontrar hoje parece estar em todo supermercado. Estamos falando de chocolate com pistache num estilo associado a Dubaï - uma mistura de luxo com inspiração oriental, hype de redes sociais e marketing em verde vibrante. Como um único sabor conseguiu, em tão pouco tempo, virar o aroma obrigatório de doces e snacks?

Como um vídeo no TikTok iniciou a caça pela barra verde

A faísca não nasce no laboratório de uma multinacional de alimentos, e sim no TikTok. No fim de 2023, a food influencer Maria Vehera grava o momento em que prova, em Dubaï, uma barra de chocolate recheada com pistache cremoso e kadaïf crocante, criação da chocolatière anglo-egípcia Sarah Hamouda, que trabalha nos Emirados.

A fórmula - chocolate com “quebra”, pistache com cara de ingrediente nobre e o toque oriental do cabelo-de-anjo - parece feita sob medida para a internet. O vídeo viraliza e, segundo relatos, ultrapassa a marca de 100 milhões de visualizações. A geração Z embarca na combinação de prazer, exotismo e FOMO (o medo de ficar por fora).

De uma barra difícil de conseguir nasce um objeto global de desejo - antes mesmo de a maioria das pessoas conseguir prová-la.

Na Europa, a barra original vira artigo escasso. Na França, por exemplo, ela aparece em poucos endereços especializados, muitas vezes com filas longas na porta. Pequenos lotes importados circulam em grupos de WhatsApp, em plataformas de revenda ou em ofertas no Instagram. Isso reforça a aura de luxo e exclusividade: quem consegue comprar faz questão de exibir nas redes.

Do “segredo” ao “pequeno luxo”: como Lindt e Lidl surfam o Dubaï style

As marcas grandes percebem a oportunidade. No outono de 2024, a Lindt lança sua própria versão do chocolate hypado: uma barra com recheio de pistache, pensada para escalar industrialmente e ajustada ao paladar europeu. O preço gira em torno de dez euros por barra - um recado claro no corredor de chocolates.

Ainda assim, muita gente compra. A Lindt posiciona o produto como um agrado especial para o dia a dia, adequado a datas como a Páscoa e ao momento consciente de “vou me dar esse luxo”. Na embalagem, predominam o verde intenso, detalhes dourados e a ênfase visual no pistache - um aceno direto ao imaginário que o TikTok tinha fixado.

Pouco depois, o Lidl entra no jogo e coloca nas gôndolas, na primavera de 2025, uma barra “Dubaï style” bem mais barata por 4,99 euros. De acordo com a imprensa francesa, os estoques acabam rapidamente e algumas lojas relatam empurra-empurra no caixa. O hype, ali, passa de vez para o varejo de massa.

  • Versão premium da Lindt: cerca de 10 euros por barra
  • Versão de discounter do Lidl: 4,99 euros
  • Vendas segundo pesquisadores de mercado: aumento de vinte vezes em poucos meses
  • Queda média de preço: cerca de um terço em um ano

Dados de pesquisa de mercado indicam que as vendas disparam em múltiplos períodos de quatro semanas. No verão de 2025, em um único intervalo, passam mais de meio milhão de barras pelos caixas; depois, o ritmo cai e se estabiliza em aproximadamente 250.000 a 300.000 unidades por mês. Ao mesmo tempo, o preço médio recua - principalmente graças a formatos menores e promoções agressivas.

Quando o supermercado inteiro fica verde: pistache e Dubaï style em todo lugar

A história não termina nas barras. Assim que o sabor se firma, ele se espalha para outras categorias. Primeiro aparecem biscoitos, sorvetes e cremes para passar no pão; logo vêm sobremesas frescas e snacks refrigerados.

Fabricantes de lácteos colocam no mercado sobremesas cremosas com perfil cacau–pistache, quase sempre em potes verdes chamativos. A promessa é simples: a mesma “nota” da tendência do chocolate caro, só que por menos dinheiro e com acesso fácil no cotidiano.

A área de congelados também entra no modo verde. A rede Picard, por exemplo, desenvolve um tronco de sorvete festivo com chocolate inspirado em Dubaï. Aos poucos, surgem várias opções no freezer, com cores que lembram mais pedras preciosas do que a clássica baunilha.

Nem as bebidas escapam. Um pó de cacau para máquinas de cápsula com nota de pistache chega às prateleiras; marcas de bebidas lácteas lançam “chocodrinks” com destaque verde; fabricantes de destilados testam licores com a mesma combinação aromática. Até misturas para brownies com coração de pistache começam a ocupar as despensas.

“Dubaï style” deixa de ser uma indicação de origem e vira um código para pistache cremoso, muita doçura e um luxo supostamente acessível.

Truque de marketing ou prazer de verdade? O que existe por trás do sabor

Do ponto de vista gastronômico, a tendência se apoia numa parceria conhecida: pistache com perfil de castanha, cacau/chocolate adocicado e algum componente crocante. No produto original, esse “crunch” vem do kadaïf; na produção em massa, as marcas frequentemente trocam por feuilletine ou outras misturas crocantes, mais simples de processar.

Muitos itens usam chocolate branco (ou bem claro) para destacar a nota de pistache e sustentar a cor verde típica. A aparência é parte central do pacote: a ideia é que, ao andar pelo corredor, o consumidor reconheça a tendência de longe.

Na prática, boa parte desses produtos já tem pouco a ver com a cidade de Dubaï. O nome funciona mais como um termo de fantasia, evocando shoppings luxuosos, hotéis no deserto e viagens “uma vez na vida”. E é exatamente esse sentimento que vai parar na seção refrigerada - em embalagem prática para a família.

Por que o pistache combina tanto com o momento atual

No lado psicológico, o fenômeno acerta em cheio. Muita gente está com o orçamento mais apertado, mas ainda quer pequenas recompensas. Um creme verde de chocolate por dois euros parece viável; já uma viagem aos países do Golfo fica distante.

Somam-se os algoritmos: plataformas como o TikTok tendem a impulsionar vídeos de comida carregados de emoção. Quando um tema engata, a atenção se multiplica quase sozinha. As marcas interpretam esses sinais, pesquisadores entregam os números e os times de desenvolvimento respondem em sequência rápida. Do primeiro clipe viral até a versão de muesli no discounter, hoje passam apenas alguns trimestres.

Para quem compra, fica a dúvida: ainda é sobre sabor ou principalmente sobre a sensação de “estar por dentro”? A resposta provavelmente está no meio do caminho.

No que prestar atenção na hora de comprar - prazer, qualidade e informações nutricionais

Quem quer experimentar chocolate inspirado em Dubaï encontra opções demais no supermercado. Mesmo assim, vale ler o rótulo com atenção, porque nem tudo entrega o que a embalagem de “luxo” sugere.

  • Percentual de pistache de verdade: muitas vezes, a crema leva só uma pequena parcela de oleaginosas; o restante vem de aromatizantes.
  • Teor de açúcar: várias versões apostam numa doçura mais intensa, muitas vezes acima da do chocolate ao leite tradicional.
  • Gorduras e óleos: cremes industriais de alta performance às vezes recorrem a óleo de palma ou outras gorduras mais baratas.
  • Preço por 100 gramas: barras menores podem parecer em conta, mas, proporcionalmente, sair mais caras do que chocolates premium.

Quem busca ingredientes mais caprichados pode procurar também pequenas manufaturas que combinam pistache e chocolate de forma mais tradicional - muitas vezes sem citar Dubaï no nome, mas com perfil aromático parecido.

Até quando o hype dura - e o que pode vir depois?

Já há consumidores relatando certo cansaço com a “onda verde”. Quando cada corredor exibe um produto com cara de pistache, até o hype mais chamativo perde o brilho. Ao mesmo tempo, os números de venda sugerem que a categoria não desaparece de imediato; ela tende a se acomodar num patamar mais baixo, porém estável.

Para a indústria, o caso vira modelo: basta um vídeo viral para transformar um sabor em presença quase onipresente em inúmeras categorias. Se serão as prateleiras tomadas por latte de açafrão, sorvete de baklava ou cappuccino de cardamomo, o mecanismo é parecido: post de tendência nas redes, gancho emocional, cor marcante, nome fácil e execução veloz em produto de massa.

Para o público, o hype do chocolate de Dubaï pode servir como convite a olhar com mais atenção para aromas e combinações. Quem gosta de cacau, pistache e crocância encontra alternativas na confeitaria clássica: tortinhas com creme de pistache, baklava com chocolate, brownies caseiros com pistache picado. Assim dá para recriar o sabor do momento - sem algoritmo, e com controle real de ingredientes e doçura.


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