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Mathis e Samuel Anstett vencem o Sigep e viram campeões mundiais juniores de pâtisserie

Dois jovens chefs com medalhas douradas exibem sobremesas e escultura de chocolate em competição culinária.

Num circuito em que, em geral, os holofotes ficam com estrelas de Paris, Tóquio ou Seul, dois talentos juniores quase desconhecidos de uma aldeia pequena da Alsácia entregaram uma surpresa concreta. Os irmãos gêmeos Mathis e Samuel Anstett conquistaram, na Itália, o título de campeões mundiais juniores de pâtisserie no prestigiado concurso Sigep, superando 18 equipes vindas de diferentes partes do planeta.

Irmãos Anstett do interior brilham em campeonato mundial

Tudo começa em Zimmersheim, uma localidade discreta perto da fronteira franco-alemã. Foi ali que Mathis e Samuel cresceram, aprenderam na mesma confeitaria, testaram os mesmos cremes e passaram noites debatendo massas e temperaturas. O que poderia parecer apenas mais uma trajetória clássica do artesanato acabou desembocando num triunfo com o qual, essencialmente, ninguém contava.

Em janeiro de 2026, no concurso internacional Sigep, em Rimini, eles enfrentaram equipes da Ásia, Europa, Américas e do Oriente Médio. O formato é implacável: 10 horas - nem um minuto a mais - para entregar um menu completo de doces em padrão de competição, com precisão, criatividade e estruturas estáveis, além de um visual idealmente espetacular.

"Em apenas dez horas, os gêmeos assam o caminho do vilarejo alsaciano diretamente ao topo do mundo da pâtisserie."

Com câmeras disparando e máquinas trabalhando ao redor, não basta enviar pratos bem executados: também é preciso aguentar a pressão. Qualquer erro tira pontos; qualquer atraso pode custar o título.

As provas: vegano, streetfood, fermento natural e uma escultura de chocolate

A disputa exige muito mais do que um bolo bonito. A banca quer comprovar se a equipe domina toda a amplitude da pâtisserie contemporânea. Para Mathis e Samuel, isso se traduziu em tarefas bem objetivas:

  • Gâteau à base de plantas com café: totalmente sem ingredientes de origem animal, mas com aroma de café claramente identificável, textura delicada e construção firme.
  • Sobremesa streetfood com referência à França: um doce para comer com a mão, porém com acabamento sofisticado - uma leitura lúdica de clássicos da culinária francesa.
  • Produto com fermento natural para o café da manhã: um preparo ao mesmo tempo tecnicamente impecável e prático para o dia a dia - macio, aromático, com o jogo de acidez característico.
  • Peça de chocolate como obra de arte: uma escultura de chocolate com 1,20 m de altura, autoportante, sem pontos de ruptura, com decoração e uma história narrada.

Entre profissionais, a figura alta de chocolate é vista como uma verdadeira prova de fogo. A temperatura precisa estar no ponto, a estrutura não pode ceder, e tudo isso enquanto o ambiente sofre com calor, refletores e nervosismo. Quem treme perde o controle da montagem rapidamente.

Por que essa combinação é tão difícil

Juntar cozinha à base de plantas, streetfood, fermentação e peça artística exige quatro lógicas diferentes no mesmo ciclo. Ao mesmo tempo, a equipe precisa:

  • conciliar técnica clássica com demandas atuais de alimentação,
  • manter estética em nível máximo,
  • organizar-se com limpeza sob pressão de tempo,
  • e, no fim, provocar emoção no prato.

É justamente aí que os irmãos Anstett se destacam. Eles desenham o fluxo de trabalho como um relógio. Enquanto um tempera o chocolate, o outro acompanha a fermentação do fermento natural. No meio do processo, provam, ajustam especiarias e corrigem em segundos pequenas falhas - como microtrincas ou bolhas de ar no glaze.

Como eles superaram a concorrência internacional

Na final, os alsacianos encararam equipes de 18 países, incluindo delegações fortes da Coreia do Sul e da China. Ambos os países investem pesado há anos em competições de pâtisserie e enviam times preparados com meses de treino meticuloso.

Mathis e Samuel foram orientados pelo experiente pâtissier Alexis Beaufils, nome conhecido do meio. Ele acompanha a dupla há algum tempo e trabalha com eles detalhe por detalhe: a velocidade para trocar um saco de confeitar, o ângulo em que uma cobertura deve escorrer, o instante exato de iniciar uma mousse.

"Enquanto outras equipes improvisam com pressa, os gêmeos parecem trabalhar no próprio laboratório - concentrados, calmos, quase em modo túnel."

A avaliação considera sabor, textura, aparência, técnica e conceito geral. Naquele dia, os irmãos pontuaram sobretudo por:

  • um fio condutor consistente em todas as criações,
  • uma assinatura clara mesmo com temas predefinidos,
  • aromas precisos sem exageros,
  • estruturas estáveis, inclusive na grande escultura de chocolate.

No pódio, Coreia do Sul e China ficaram atrás deles. A comissão decidiu a favor dos Anstett porque o conjunto - criatividade, limpeza e lógica de execução - se apresentou de forma coesa.

Do palco da TV ao título mundial

Para quem acompanha a confeitaria na França, eles não são totalmente desconhecidos. Mathis e Samuel já apareceram numa temporada profissional de “Le Meilleur Pâtissier”, um programa que, em formato, pode lembrar ao público brasileiro algo na linha de “Bake Off Brasil: Mão na Massa – Profissionais”. Ali já se via o quanto a dupla funciona como um único organismo.

“Quatro mãos, uma cabeça” é como muitos colegas descrevem o jeito deles trabalharem. Um inicia um movimento e o outro finaliza. As orientações internas frequentemente cabem em poucas palavras - às vezes, só um olhar. Num concurso com tempo tão apertado, isso vale segundos preciosos.

A vivência de TV também pesou em Rimini mais do que parece: eles já conhecem o barulho, as câmeras e a sensação de estar o tempo todo sob observação. A ansiedade de palco quase não os atrapalha.

Por que gêmeos têm uma vantagem real aqui

Na pâtisserie, trabalhar em equipe é comum, mas harmonia verdadeira é rara. Com os irmãos Anstett, a dinâmica lembra a de uma dupla esportiva treinada. As vantagens são evidentes:

  • Eles confiam um no outro em cada decisão.
  • Eles conhecem com precisão as forças e limitações do parceiro.
  • Eles falam a mesma língua técnica, do jargão ao humor.
  • Eles resolvem atritos mais rápido por compartilharem a mesma base.

O que de fora pode soar como uma curiosidade - gêmeos vencendo um título mundial - é, na prática, um fator central do resultado. Enquanto outras equipes ainda reorganizam papéis nos momentos de stress, eles já estão trabalhando em fluxo.

Nova visibilidade para a pâtisserie na Alsácia

Para a região de origem, a conquista vale muito mais do que uma nota em revista especializada. A Alsácia é conhecida por sua tradição de panificação e confeitaria - do kouglof a pretzels natalinos bem generosos -, mas a pâtisserie moderna, voltada a competição, raramente ocupa o centro do palco por lá.

O título chama atenção para uma geração que respeita a tradição e, ao mesmo tempo, tem coragem de avançar. O fermento natural passa a aparecer em criações finas de sobremesa; receitas veganas deixam de ser tratadas como “plano B” e ganham status de estética própria. Essas mudanças já não conversam apenas com clientes jovens, mas também com um público mais amplo e atento à saúde.

"A mensagem de Rimini: a alta pâtisserie hoje não nasce apenas nas metrópoles, mas também em pequenas oficinas longe dos grandes boulevards."

Mesmo com a comemoração, Mathis e Samuel mantêm os pés no chão. O título abre portas - parcerias, novos trabalhos, talvez projetos próprios -, mas não elimina a base de qualquer ofício: todo dia cedo a massa precisa ser reiniciada, e cada creme deve ser preparado fresco.

O que realmente significam termos como pâtisserie e fermento natural

Em países de língua alemã, esses conceitos frequentemente se misturam, mas “pâtisserie” não é apenas “bolo”. Trata-se de uma combinação calibrada de:

  • massas (massa sablée, massa choux, pão de ló),
  • cremes (mousse, ganache, variações de pudim/creme),
  • coberturas, glaces, decorações,
  • e, muitas vezes, montagens em várias camadas com texturas diferentes.

O fermento natural, que muita gente associa principalmente ao pão, já entrou de vez no universo doce. Quando bem conduzido, ele traz aromas complexos, uma acidez leve e melhor digestibilidade. Em competição, um bom produto com fermento natural evidencia o quanto a equipe entende de fermentação, timing e condução de forno.

A tendência de sobremesas veganas também cresce com força no ambiente profissional. Ao cozinhar sem ovo, manteiga e creme de leite, é preciso repensar textura e sabor. As gorduras costumam vir de castanhas ou óleos, e a estrutura depende de amidos ou proteínas vegetais. Uma mousse cremosa e, ao mesmo tempo, firme à base de plantas já é considerada outra “prova de fogo”.

O que confeiteiros amadores podem aprender com os novos campeões mundiais juniores

Mesmo que quase ninguém vá montar em casa uma escultura de chocolate de 1,20 m, dá para tirar lições do caminho dos irmãos. Três pontos se aplicam bem ao cotidiano da cozinha:

  • Passos pequenos e limpos em vez de efeitos de palco: é melhor assar um bolo simples com perfeição do que servir três camadas elaboradas pela metade.
  • Aromas bem definidos: muitas vezes, uma nota principal por sobremesa é suficiente. Um bolo de espresso pode ter sabor intenso de café sem carregar mais cinco direções de gosto.
  • Planejamento de mise en place: cremes, bases e recheios - muita coisa pode ser iniciada no dia anterior. Pensar como profissional ajuda a repartir o trabalho e reduzir o stress na hora de servir.

Quem quiser testar versões veganas pode começar trocando componentes específicos: experimentar um creme vegetal em uma ganache ou assar um biscoito amanteigado com margarina vegetal, por exemplo. Assim, a rotina e a segurança aumentam etapa por etapa.

A trajetória de Mathis e Samuel Anstett mostra até onde paixão, obsessão por detalhe e um time entrosado podem levar. Ela não só marca um marco pessoal, como também envia um sinal à cena da pâtisserie: técnica, criatividade e coragem para novos conceitos já são a verdadeira moeda - seja em Rimini, na Alsácia ou numa pequena confeitaria em algum país de língua alemã.

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