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Metformina e degeneração macular relacionada à idade (AMD): estudo britânico aponta possível efeito

Mulher idosa fazendo exame de vista com equipamento oftalmológico em consultório médico.

Quem vive com diabetes tipo 2 já conhece o nome de cor: metformina. O comprimido clássico e discreto ajuda a baixar a glicose no sangue. Agora, um grande estudo do Reino Unido sugere que ela também pode desacelerar a degeneração macular relacionada à idade (AMD) - a causa mais comum de perda visual grave na terceira idade.

O que está por trás da temida degeneração macular

A degeneração macular relacionada à idade, ou AMD, atinge principalmente pessoas acima de 60 anos. Aos poucos, ela compromete a mácula - uma pequena área da retina responsável pela visão central de alta definição, essencial para ler, reconhecer rostos e dirigir.

Na prática, os médicos dividem a doença em duas formas principais:

  • AMD úmida: surgem novos vasos sanguíneos anormais sob a retina. Como são frágeis e “vazam”, líquido e sangue podem extravasar, provocando inchaço na região da mácula. A piora da visão pode ser intensa em poucas semanas. Oftalmologistas tentam conter a evolução com injeções repetidas dentro do olho.
  • AMD seca: mais frequente, essa forma leva à degeneração progressiva das células sensíveis à luz e do epitélio pigmentar na mácula. Aparecem “falhas” na área de visão nítida. O processo costuma se estender por cinco a dez anos e, no fim, também pode resultar em cegueira central. Na Europa, ainda não há um medicamento aprovado para essa forma.

Em países industrializados, as fases intermediárias e tardias da AMD são consideradas a principal causa de deficiência visual severa e cegueira em pessoas com mais de 65 anos. Cerca de 10 a 15% dessa faixa etária é afetada - e a tendência é de aumento, impulsionada pela maior expectativa de vida.

"AMD é hoje o principal motivo pelo qual muitos idosos devolvem a carteira de motorista e deixam de reconhecer corretamente os rostos de familiares."

Por que a metformina passou a interessar aos oftalmologistas

A metformina é um dos pilares do tratamento do diabetes tipo 2. Está em uso há décadas, tem amplo respaldo científico e costuma ser acessível. Nos últimos anos, porém, cresceu a suspeita de que ela possa oferecer benefícios que vão além do controle glicêmico.

Resultados de estudos em laboratório e em animais apontam, entre outros efeitos:

  • ação antioxidante, reduzindo danos celulares provocados por radicais livres;
  • redução de processos inflamatórios crônicos;
  • efeito inibidor sobre a formação excessiva de novos vasos em tecidos;
  • estímulo à “limpeza” celular (autofagia), processo pelo qual estruturas danificadas são degradadas.

Esses caminhos biológicos também participam do surgimento e do agravamento da AMD. Por isso, epidemiologistas passaram a observar um padrão: análises amplas de bases de dados de seguradoras já indicavam que pessoas com diabetes que usam metformina desenvolvem AMD com menos frequência do que pacientes semelhantes sem esse medicamento.

O estudo de Liverpool: 2.089 pacientes, cinco anos de acompanhamento

Pesquisadores da Universidade de Liverpool decidiram examinar o tema com mais detalhe. Eles aproveitaram o programa local de rastreio de alterações retinianas do diabetes, que realiza periodicamente fotografias do fundo do olho - um material muito apropriado para acompanhar a evolução da AMD.

Entre 2011 e 2016, a análise incluiu 2.089 pessoas com mais de 50 anos e diabetes tipo 2. No início, nenhum participante apresentava AMD avançada. Aproximadamente 40% usavam metformina, enquanto 60% recebiam outros tratamentos para diabetes sem esse princípio ativo.

Após cinco anos, todos foram submetidos a uma nova fotografia da retina. Especialistas classificaram cada imagem seguindo um esquema padronizado:

  • sem AMD,
  • AMD inicial,
  • AMD intermediária,
  • AMD tardia (úmida ou seca avançada).

Para tornar a comparação entre os grupos o mais justa possível, a equipa levou em conta diversos fatores que poderiam confundir os resultados: idade, sexo, tempo de diabetes, controlo da glicose, pressão arterial e o grau de outras lesões retinianas relacionadas ao diabetes.

Qual foi o tamanho do efeito

Ao fim de cinco anos, apareceu um sinal claro: quem usava metformina apresentou menor frequência de AMD intermediária em comparação com quem não usava. Em termos estatísticos, o risco foi cerca de 37% menor.

"Usuários de metformina tiveram, ao longo de cinco anos, um risco reduzido em quase um terço para AMD intermediária."

Já para estágios iniciais de AMD, o grupo não identificou uma associação consistente. No caso da progressão para fases tardias, mais ameaçadoras para a visão, o resultado também não foi conclusivo - em parte porque houve poucos casos nessa categoria, o que limita inferências mais firmes.

O que o estudo mostra - e o que ele não consegue provar

A análise de Liverpool não é um ensaio clínico clássico com randomização; trata-se de um estudo observacional. Ou seja, a metformina não foi atribuída por sorteio, mas prescrita conforme decisão médica. Isso abre espaço para diferenças entre grupos que podem influenciar o desfecho, mesmo após ajustes estatísticos.

Alguns exemplos citados:

  • pessoas em metformina muitas vezes iniciam o tratamento mais cedo e, em certos casos, estão mais ligadas a acompanhamento regular;
  • elas podem ter hábitos de vida mais saudáveis no conjunto ou perfis diferentes de comorbidades;
  • nem todos os fatores de estilo de vida são medidos com precisão suficiente para serem totalmente controlados.

Por isso, os autores deixam explícito: estes dados não provam que a metformina realmente previna a AMD. Ainda assim, o achado sustenta fortemente a necessidade de testar a substância de forma direcionada em estudos clínicos.

"Os dados oferecem um indício claro, mas ainda não um passe livre para usar metformina como terapia para AMD."

Como a metformina poderia proteger a retina?

Do ponto de vista biológico, a hipótese encaixa-se bem. Com o envelhecimento, a mácula tende a acumular produtos do metabolismo e lípidos. Ao mesmo tempo, os sistemas antioxidantes perdem força, mensageiros inflamatórios aumentam e células deixam de funcionar e morrem.

Cientistas discutem vários mecanismos pelos quais a metformina poderia atuar nesse cenário:

  • Redução de stress celular: ao influenciar a produção de energia nas mitocôndrias, a metformina pode diminuir o stress oxidativo.
  • Atenuação de microinflamação: inflamações crónicas de baixo grau são consideradas um motor de várias doenças do envelhecimento - inclusive no olho.
  • Modulação da formação de vasos: na AMD úmida, vasos anormais e permeáveis são centrais; a metformina poderia funcionar como um travão.
  • Ativação da autofagia: a célula elimina danos e depósitos com mais eficiência, o que, no longo prazo, pode ajudar a manter a função da retina.

Se esses mecanismos de facto ocorrem no olho humano da mesma maneira, é algo que estudos futuros ainda precisam demonstrar. O que já é evidente: poucos medicamentos antigos são hoje tão discutidos como “ferramenta anti-envelhecimento” na medicina e na pesquisa quanto a metformina.

O que isso significa para pessoas com diabetes e para idosos?

Quem já toma metformina para diabetes tipo 2 não deve parar por conta própria nem ajustar a dose - seja por receio de efeitos adversos, seja na expectativa de “proteger melhor” os olhos. Este estudo não justifica qualquer mudança fora da orientação médica.

Da mesma forma, pessoas sem diabetes não devem tentar obter metformina “preventivamente” por iniciativa própria. O medicamento pode causar efeitos como desconforto gastrointestinal e, em casos raros, descompensações metabólicas graves, sobretudo em pessoas com problemas renais.

Para quem tem AMD ou risco elevado, continuam valendo medidas com eficácia bem estabelecida:

  • parar de fumar, já que o tabagismo é um dos fatores de risco mais fortes para AMD;
  • fazer consultas regulares com o oftalmologista, especialmente após os 60 anos e na presença de doenças prévias;
  • ficar atento a sinais de alerta, como linhas que parecem tortas ou manchas escuras no centro do campo visual;
  • manter alimentação equilibrada, com muitos vegetais, peixe, nozes e gorduras saudáveis.

Para onde a pesquisa vai a partir daqui

Os autores do estudo de Liverpool defendem os próximos passos com clareza: ensaios clínicos controlados. Nesse tipo de estudo, a distribuição de metformina (ou não) é definida por randomização. Só assim será possível avaliar com segurança se o fármaco reduz o aparecimento da AMD ou desacelera a sua progressão.

Há vários cenários plausíveis para investigar:

  • uso em pessoas com AMD intermediária para retardar o avanço para estágios tardios;
  • combinação com tratamentos já usados na AMD úmida, com o objetivo de aumentar o intervalo entre injeções;
  • prevenção em grupos de risco muito elevado, por exemplo em casos de forte histórico familiar - desde que o benefício seja demonstrado de forma inequívoca.

Como a metformina já é utilizada há muitos anos, esses estudos tendem a ser mais rápidos e menos dispendiosos do que o desenvolvimento de moléculas totalmente novas. Isso alimenta a expectativa de que, se o benefício se confirmar, uma nova opção não leve décadas para chegar.

Termos importantes sobre perda de visão no envelhecimento

Algumas expressões médicas podem parecer intimidantes de início. Três termos aparecem com frequência quando se fala em AMD:

  • Mácula: área minúscula no centro da retina onde a densidade de células visuais é mais alta; é dali que vem a nossa visão mais nítida.
  • Retina: camada sensível à luz na parte posterior do olho; converte luz em impulsos nervosos que o cérebro interpreta.
  • Fotografia do fundo do olho (foto de fundo, fundoscopia/foto de fundo de olho): imagem da retina feita com câmaras especiais pelo oftalmologista, mostrando vasos, mácula e nervo óptico em alta resolução.

Entender esses termos facilita a leitura de relatórios médicos sobre AMD e ajuda a fazer perguntas mais objetivas. Em doenças que progridem lentamente, como a AMD seca, esse tipo de compreensão pode tornar decisões pessoais mais seguras.


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