Quando o vulcão Mount St. Helens, no estado de Washington (EUA), entrou em erupção em 1980, a área ao redor virou um cenário quase lunar, coberto por cinzas e pedra-pomes. Plantas, animais e microrganismos - praticamente tudo parecia ter desaparecido. Alguns anos depois, um grupo de pesquisadores decidiu tentar algo fora do padrão: levou esquilos-terrestres para aquele terreno sem vida. Hoje, passadas mais de quatro décadas, um estudo recente mostra o quanto essa intervenção ainda influencia o ecossistema.
Uma das piores catástrofes vulcânicas dos EUA
Em 18 de maio de 1980, o Mount St. Helens explodiu. A erupção é considerada o evento vulcânico mais destrutivo da história dos Estados Unidos. Foram 57 mortes, grandes extensões de floresta queimadas, animais eliminados em questão de minutos e rios e lagos entupidos por cinzas e detritos.
O que sobrou foi um panorama desolador: campos contínuos de pedra-pomes acinzentada, camadas de cinza com metros de altura e um “solo” com pouquíssima vida. Na época, especialistas imaginavam que a recuperação natural seria extremamente lenta - mais provável em séculos do que em décadas.
Justamente por isso, cientistas passaram a buscar caminhos pouco convencionais para favorecer o retorno de plantas e animais. Programas tradicionais de reflorestamento ajudavam pouco, porque o substrato era, na prática, quase estéril.
A ideia ousada: esquilos-terrestres como engenheiros do solo
No início dos anos 1980, em universidades dos EUA, ganhou força uma proposta incomum. Em vez de focar apenas em árvores e sementes, a atenção se voltou para o que quase não se enxerga: microrganismos e fungos do solo. É esse componente subterrâneo que sustenta todo o resto do processo de regeneração.
"A hipótese: se animais escavadores abrirem o substrato, eles trazem para a superfície camadas antigas e mais ricas em nutrientes - e, junto com elas, bactérias e fungos de que as plantas precisam com urgência."
Entre os principais alvos estavam os fungos micorrízicos. Eles vivem em associação íntima com as raízes das plantas: ampliam a área de absorção, ajudam a fornecer nutrientes e água e, em troca, recebem açúcares produzidos pela fotossíntese. Sem essa parceria, muitas espécies mal conseguem se estabelecer - ou simplesmente não crescem.
Os esquilos-terrestres, roedores escavadores conhecidos por abrir túneis e empurrar terra para a superfície, pareciam feitos para essa tarefa. No dia a dia, são vistos por muitos agricultores como um incômodo por revirarem pastagens e lavouras. Para os pesquisadores no vulcão, poderiam funcionar como agentes de recuperação.
Um único dia que virou o jogo
Em maio de 1983 - três anos após a erupção - cientistas soltaram vários esquilos-terrestres, de forma direcionada, em duas áreas bem delimitadas de pedra-pomes no Mount St. Helens. Os animais permaneceram ali por apenas um dia. Tempo suficiente para cavar, construir galerias e deslocar material do subsolo.
Antes disso, nas duas áreas era possível ver somente poucas plantas. Quase nada conseguia enraizar naquele material solto e pobre em nutrientes. A expectativa dos pesquisadores era que, ao escavar, os roedores expusessem camadas mais profundas contendo microrganismos antigos e esporos de fungos.
O resultado que veio depois foi muito além do que se esperava.
De campo morto a tapete verde
Seis anos após a “ação dos esquilos-terrestres”, as áreas foram analisadas novamente. O que se observou chamou atenção: onde antes quase nada existia, passaram a contar cerca de 40.000 plantas. Gramíneas, arbustos e árvores jovens - um mosaico diverso de espécies pioneiras havia se instalado.
Já os trechos ao redor, onde os animais não tinham sido introduzidos, continuavam com aspecto ralo e vazio. A diferença aparecia com nitidez em mapas e em imagens aéreas.
"De um campo estéril de pedra-pomes, as áreas trabalhadas passaram a abrigar um ecossistema vivo - em poucos anos."
O fator decisivo foi a rede subterrânea de microrganismos e, sobretudo, de fungos micorrízicos. Nos solos revolvidos, havia bem mais filamentos fúngicos e uma diversidade maior de microrganismos. Com essa base, mudas e plântulas passaram a extrair nutrientes do substrato com mais eficiência e a reter melhor a água.
Os heróis invisíveis: fungos micorrízicos
Os fungos micorrízicos formam uma simbiose com as raízes e funcionam como uma espécie de “extensão” da planta:
- liberam nutrientes como fósforo e nitrogénio do solo
- melhoram o acesso à água durante períodos secos
- aumentam a resistência a doenças e ao stress
- conectam diferentes plantas entre si, criando uma “rede subterrânea”
No Mount St. Helens, essa rede foi essencial para que não surgissem apenas tufos isolados de capim, mas comunidades vegetais mais estáveis. Agulhas e folhas que caíam no chão adicionavam material orgânico, que por sua vez alimentava microrganismos e fungos. Assim, um ciclo positivo se estabeleceu.
43 anos depois: o efeito continua
Por muito tempo, não se sabia se o impacto do experimento duraria pouco. Um novo estudo, publicado na revista científica “Frontiers”, dá uma resposta direta: as consequências da introdução dos esquilos-terrestres ainda são mensuráveis mesmo após mais de quatro décadas.
Nas áreas tratadas, hoje crescem árvores, arbustos e uma vegetação surpreendentemente diversa. Além disso, as comunidades microbianas do solo ainda diferem de forma clara das zonas em que os animais não foram usados.
"Um único dia com animais escavadores marcou um ecossistema de tal maneira que as marcas ainda são visíveis após 43 anos."
Os pesquisadores também observaram que, nas “áreas dos esquilos-terrestres”, as árvores aparecem mais densas e se desenvolveram mais rapidamente. Até hoje, as raízes são beneficiadas por fungos micorrízicos ativos, que capturam nutrientes de agulhas e folhas caídas e os redistribuem às plantas.
Para muitos ecólogos, isso serve de alerta: projetos de restauração que olham apenas para fatores visíveis, como plantar árvores ou semear gramíneas, podem ignorar o elemento mais determinante - a vida dentro do solo.
O que o estudo sugere sobre como lidamos com a natureza
A nova análise aponta várias lições para o manejo de áreas degradadas, seja após erupções vulcânicas, incêndios florestais ou uso industrial intenso:
- Animais escavadores não são apenas “pragas”: eles podem atuar como aliados importantes na reconstrução de solos vivos.
- O solo guarda memória: mesmo superfícies que parecem mortas frequentemente retêm microrganismos e esporos de fungos, capazes de voltar a funcionar sob condições adequadas.
- Intervenções pequenas, impacto enorme: uma ação curta e bem direcionada pode iniciar processos duradouros.
- A restauração começa no invisível: sem o retorno de microrganismos e fungos, florestas e campos não se sustentam a longo prazo.
Para iniciativas em áreas de mineração, terrenos queimados ou regiões após remoção de barragens, os resultados dão pistas valiosas: em vez de apostar apenas em megacampanhas de plantio, pode ser mais eficaz começar por estimular a biota do solo - com descompactação, cobertura orgânica (mulch), madeira morta ou, em certos casos, com animais escavadores introduzidos de forma controlada.
Esquilos-terrestres, minhocas e outros: os construtores subestimados sob os nossos pés
O caso do Mount St. Helens deixa claro o quanto os animais moldam o solo. Os esquilos-terrestres são apenas uma peça de um time inteiro de “engenheiros do solo”:
| Grupo de animais | Função no ecossistema |
|---|---|
| Esquilos-terrestres e outros roedores | afrouxam o solo, transportam sementes, trazem camadas antigas para a superfície |
| Minhocas | misturam matéria orgânica, melhoram a estrutura e a aeração |
| Larvas de insetos no solo | decompõem restos vegetais, criam espaços para ar e água |
| Toupeiras | ventilam camadas profundas, favorecem a mistura e o escoamento de água |
Em muitas regiões, esses animais são vistos sobretudo como fonte de problemas, por deixarem montes de terra ou por danificarem raízes. O estudo no vulcão revela o outro lado: sem eles, faltam motores fundamentais para a regeneração natural.
O que podemos aprender com o experimento no vulcão
A trajetória do Mount St. Helens quase parece uma fábula científica: uma encosta devastada, um experimento arriscado com esquilos-terrestres e, décadas depois, um habitat florido e estável. Mas por trás disso existe ecologia aplicada, com mecanismos bem concretos.
O episódio evidencia o quanto tudo está interligado na natureza - plantas, animais, microrganismos, fungos e até cinzas e rochas. Quando se mexe com inteligência em um ponto, pode surgir uma reação em cadeia que vai muito além da ação inicial.
Para danos ligados ao clima, incêndios florestais ou secas na Europa Central, vale olhar com atenção para essas lições. Em locais onde monoculturas de abeto entram em colapso ou os solos perdem humidade, estimular a vida do solo de forma direcionada pode trazer mais resultado no longo prazo do que simplesmente trocar espécies de árvores.
E, sim, a “moral” do estudo dá até para dizer com um leve sorriso: às vezes, diante de um problema ambiental que parece sem saída, não é um plano de alta tecnologia que muda o rumo - e sim um pequeno roedor com patas dianteiras fortes.
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