O lobby do açúcar sempre pareceu um gigante intocável - até o momento em que outro colosso, a Big Pharma, resolveu chamar a atenção dele (com um empurrão nada sutil).
Inflação e um raro “sobrevivente”: o açúcar bruto em queda
Desde 2021, com a saída da crise da COVID-19, o mundo vive um ciclo inflacionário - ainda que já existam sinais de desaceleração. Comida, energia, imóveis, turismo… praticamente tudo sentiu o impacto de frente. Ainda assim, alguns itens escaparam do pior por um tempo; o açúcar bruto foi um deles, mas não por muito.
O preço do açúcar bruto caiu para o menor patamar desde 2020, depois de perder metade do valor em relação ao pico de 2023.
GLP-1, Ozempic e companhia: por que a demanda por açúcar está murchando
É verdade que os dois maiores produtores do planeta (Brasil e Índia) tiveram safras excepcionais em 2025. Mas a explicação central para essa queda vai além da oferta: ela está no consumo.
A demanda começou a recuar por causa da expansão rápida dos medicamentos análogos de GLP-1 usados no tratamento da obesidade (Ozempic, Wegovy, Mounjaro ou Zepbound). Eles atuam fortemente na saciedade; quem usa tende a reduzir bastante o consumo de doces e de alimentos ultraprocessados.
E, como o mercado costuma precificar o futuro antes que ele chegue, investidores não esperaram “metade do planeta” estar em tratamento: já apostaram que, no longo prazo, o consumo global de açúcar vai desabar. Com essa antecipação, a cotação foi para baixo.
Quem ainda quer açúcar? Quase ninguém
Esses remédios imitam um hormônio intestinal que avisa ao cérebro quando o estômago está cheio. O resultado prático é menos belisco e menos interesse naquele prazer compulsivo associado ao açúcar - e, com isso, as gôndolas de balas, biscoitos, cereais e sorvetes começam a perder seus clientes mais valiosos.
O choque econômico tende a ser mais severo em mercados como Estados Unidos e México, onde o apetite por glicose é especialmente alto. Mas o ponto crítico para a indústria não é o consumidor médio que compra três pacotes de biscoito por ano - e sim os grandes consumidores. Segundo Stephen Geldart, da Czarnikow (empresa de comércio atacadista ligada a chocolate e confeitaria), é um grupo pequeno e fiel que sustenta o setor.
Os números ilustram o tamanho do risco: apenas 20% dos consumidores respondem por 65% das vendas de produtos ultra-açucarados. Como esse perfil é justamente o alvo preferencial das farmacêuticas que produzem GLP-1, o impacto pode cortar, de uma vez, a principal fonte de receita de todo um ecossistema. “Se esses grandes consumidores começarem a tomar esses medicamentos, a queda nas vendas pode ser muito maior do que o previsto”, alerta Stephen Geldart.
Pela primeira vez, o lobby do açúcar encontra um adversário do mesmo porte - e perde terreno. O dinheiro que ontem era gasto em toneladas de desejo por açúcar, hoje é capturado pela Big Pharma. O fluxo de capital mudou de império.
Proteínas: o novo ouro branco
Como costuma acontecer, a crise de um segmento vira oportunidade para outro - e, aqui, quem ganha espaço é a cadeia láctea. Os medicamentos citados são muito eficazes para reduzir peso, mas também podem provocar perda muscular relevante. Para evitar emagrecer demais, os pacientes passam a seguir uma orientação rígida: aumentar a ingestão de proteína.
Enquanto a cotação do açúcar afunda, a do lactosérum (o soro do leite) dispara. No Reino Unido, as vendas de queijo fresco aumentaram 50% em janeiro 2026, e o mercado de Whey (proteína do soro do leite em pó) vive um momento sem precedentes.
Produção global de açúcar: oferta rígida diante do tombo da demanda
Diante dessas duas viradas, onde fica a produção mundial de açúcar? Paradoxalmente, ela praticamente não se moveu, mesmo com a demanda caindo: seguem sendo produzidas 180 milhões de toneladas por ano. Ou seja, há oferta demais de um produto para uma população que já não tem o mesmo apetite por consumi-lo.
Esse descompasso tem um componente estrutural típico da cana-de-açúcar: depois de plantada, ela é colhida por cinco a sete anos. Um produtor não consegue simplesmente eliminar a lavoura de um dia para o outro sem jogar fora anos de investimento.
Com isso, produtores e usinas podem acabar com um excedente difícil de escoar. João Paulo Frossard, analista de agronegócio do Rabobank, afirma que “essa mudança não é temporária”, e complementa: “É um fator que a indústria precisa incorporar aos seus planos de longo prazo, porque as pessoas estão comendo menos e prestando mais atenção ao que consomem”. Os grandes negociantes de açúcar, que atravessaram guerras e campanhas nutricionais, dificilmente imaginaram o grande processo de abstinência coletiva imposto, à força, pela Big Pharma. Sem alternativa, o setor terá de se reinventar - sob o risco de ficar para trás, preso numa armadilha deflacionária.
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