A Kia entra no segmento de SUVs elétricos urbanos com o EV2. Preço de entrada abaixo de 20 000 €, autonomia de 453 km e uma lista de equipamentos bem generosa colocam o coreano como uma alternativa difícil de ignorar. E, sinceramente, já nos ganhou.
Nunca vi um asfalto tão castigado. A Avenida Ribeira das Naus, à beira do Tejo em Lisboa, parece mais um campo minado do que uma via em condições. Ainda assim, todo mundo segue por ali com calma - nós incluídos, ao volante do novo Kia EV2. E aí vem a surpresa: quando a expectativa era sair procurando o nosso fisioterapeuta favorito, o SUV coreano mostra uma suavidade impressionante ao encarar as lombadas e remendos.
O conforto é notável, mesmo com as rodas de 18 polegadas do carro avaliado. As irregularidades são “engolidas” com muita competência, com amortecedores bem controlados tanto na compressão quanto no retorno. Como de costume, em velocidade muito baixa ele pode bater seco nos cortes mais traiçoeiros do piso, mas fora isso o rodar é digno de elogio. A sensação lembra o que a Citroën entrega com seus batentes hidráulicos.
Na cidade: o EV2 é o rei da eficiência com menos de 9 kWh/100 km
No uso urbano, a facilidade de condução do EV2 é um destaque. O raio de giro é bem pequeno e a direção é leve, quase sem esforço. A visibilidade também agrada, com grandes áreas envidraçadas que reduzem os pontos cegos. E eles praticamente desaparecem com as câmaras instaladas sob os retrovisores, que entram em ação quando o pisca é acionado. Circular pelas ruas apertadas de Lisboa também não assusta.
O EV2 é bem compacto: 4,06 metros de comprimento e 1,80 metro de largura. E, como a condução One Pedal pode ser ativada ao manter a borboleta esquerda pressionada, as manobras e deslocamentos na cidade acontecem com uma tranquilidade exemplar. O consumo ficou extremamente baixo: 8,9 kWh/100 km medidos num trajeto de 18 km. É um resultado excelente - entre os menores que já registrámos.
Na estrada: versatilidade existe, mas o dinamismo fica para trás
Ao ganhar velocidade na Ponte Vasco da Gama, onde o limite é de 120 km/h, o EV2 mantém a compostura. O isolamento acústico surpreende para a categoria, com ruídos aerodinâmicos bem controlados. A condução semiautônoma opcional administra aceleração, frenagem e direção de forma bastante natural. Em certos momentos, dá a impressão de estar num carro de segmento superior - soa clichê, mas é verdade. Nessa tocada, o consumo estabiliza em 16 kWh/100 km.
Já na N10 rumo a Setúbal, o cenário muda: apesar de linda, a estrada costeira alterna subidas fortes com curvas irregulares e onduladas. Em ritmo mais forte, o EV2 não lida tão bem com as curvas e apresenta bastante rolagem de carroçaria. A direção não ganha peso com a velocidade e continua imprecisa, inclusive no modo Sport. O pedal de freio, sensível demais ao toque, também não ajuda. E os bancos praticamente não oferecem apoio lateral.
Vida a bordo: um interior claro, mas com alguns cortes de custo
Em outras palavras, o coreano combina muito mais com uma condução tranquila. E aí dá até vontade de abrir o teto panorâmico e aproveitar o habitáculo do EV2 inundado de luz. Sem apostar em tons escuros, ele trabalha com cores claras que deixam o ambiente mais acolhedor. À frente do passageiro, há uma faixa de tecido que se estende parcialmente pelas portas. O nível de acabamento, no entanto, é apenas mediano.
Os plásticos reciclados não têm o melhor aspeto e marcam com facilidade. Algumas áreas já estavam bem riscadas, mesmo com o nosso carro de teste ainda sem ter chegado aos primeiros mil quilómetros. A menos que um urso pardo tenha passado por ali antes de nós, o conjunto passa uma sensação de economia. Por outro lado, os rivais também não costumam entregar um mobiliário muito superior. Então vale seguir para a habitabilidade, onde o EV2 se sai de forma correta.
Habitabilidade: sobra espaço para a cabeça, falta para as pernas no EV2
Graças ao perfil mais “quadrado” do carro, há boa folga para a cabeça na frente e atrás. Já o espaço para as pernas no banco traseiro deixa uma impressão mais morna, e o assento não apoia bem as coxas. Mesmo sem túnel central, acomodar três pessoas atrás continua a ser um desafio. Talvez por isso exista uma versão com dois assentos traseiros deslizantes.
A praticidade melhora nesse caso, mas esse modelo tem pouca probabilidade de chegar à França. Segundo a comunicação da Kia, há conversas em andamento para entender se a variante de quatro lugares pode ter acesso a incentivos governamentais. O porta-malas, relativamente alto, tem 362 litros. Em termos de polivalência, parece haver fôlego: a autonomia chega a 317 km com a bateria de 42,2 kWh e a 453 km com o acumulador de 61 kWh.
Autonomia e recarga: uma plataforma 400V “à moda antiga” para o EV2?
Na prática, 300 km de autoestrada dificilmente serão alcançáveis, mesmo com a bateria maior. Ou seja: será preciso recarregar. Aqui não há a arquitetura de 800V que ajudou a construir a reputação da marca. O EV2 usa uma plataforma 400V mais económica, capaz de aceitar até 118 kW em corrente contínua (DC) com a bateria menor. A potência de carga do acumulador maior ainda não foi divulgada.
Ainda assim, a Kia fala em 29 minutos para ir de 10 a 80 % com a bateria pequena e 30 minutos para repetir o processo com a bateria grande. Isso é o padrão do segmento - o que pode indicar uma curva de carga menos eficiente do que o ideal, sem um patamar alto sustentado. Infelizmente não conseguimos confirmar, já que o percurso preparado pela marca não incluiu nenhuma paragem para recarga.
Preços: o melhor custo-benefício do mercado?
Isso é motivo para desmerecer o EV2? De forma alguma, até porque ele não foi feito para ser um devorador de estrada. E, convenhamos, meia hora numa recarga não é o fim do mundo: é um tempo de espera “à moda antiga”, digamos. Além disso, o EV2 chega com preço competitivo, já que a gama começa em 26 670 € sem incentivos governamentais. Considerando as ajudas, a conta pode cair para 19 970 €. É bem mais suave do que o valor pedido pela Renault 4.
Ele talvez não seja o mais barato de todos, mas está claramente entre os mais acessíveis. E a lista de equipamentos não é tímida: de série, traz câmara de ré, assistente de estacionamento dianteiro e traseiro, piloto automático adaptativo, faróis em LED, ar-condicionado automático, acesso e partida sem chave e o conjunto de três ecrãs panorâmicos. Ou seja, já sai bem servido.
Para ter mais autonomia, é preciso optar pela bateria maior, que custa pelo menos 28 820 €, ou 24 320 € após o abatimento das várias primas. Ótimo, embora seja uma pena não dar para combinar a bateria grande com a versão de entrada. De todo modo, a concorrência fica para trás no aspeto financeiro - e isso é o que mais pesa no segmento B.
A nossa opinião sobre o Kia EV2
Em meio a uma enxurrada de lançamentos cada vez menos acessíveis, o Kia EV2 aparece como uma pausa bem-vinda ao mostrar que dá, sim, para juntar o bom com o barato. Sejamos claros: 20 000 ou 30 000 € continuam a ser valores altos em termos absolutos. Mas, pelo que entrega, o EV2 sai-se muito bem: conforto, facilidade de condução, equipamentos e versatilidade estão presentes. Salvo um desastre de última hora, a resposta do público deve acompanhar.
Entre o charme retrô da Renault 4 e o pacote de equipamentos deste Kia EV2 a preço agressivo, para que lado o seu coração pende? Queremos os seus argumentos nos comentários!
Kia EV2 Earth Autonomia Padrão
Preço: 31 320 €
Nota geral: 8
Veredito
8.0/10
Gostamos
- O conforto surpreendente
- A agilidade na cidade
- O pacote de equipamentos muito completo
- O consumo baixo
Gostamos menos
- Falta de dinamismo
- Bancos traseiros apertados
- Qualidade de acabamento simples
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