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Estudo de 43 anos liga café e chá com cafeína a menor risco de demência

Mulher madura tomando café junto a chá e livros em cozinha iluminada por luz natural.

Durante mais de quatro décadas, investigadores acompanharam dezenas de milhares de pessoas e registaram com detalhe os seus hábitos de consumo de bebidas. O resultado, que tem gerado debate no mundo todo, aponta que tomar café ou chá com cafeína com regularidade pode proteger o cérebro de forma mensurável - inclusive com menor risco de demência.

O que a nova pesquisa de longo prazo realmente mostrou

Publicado agora na revista científica JAMA, o estudo acompanhou os participantes por 43 anos e reuniu dados de mais de 131.000 pessoas. No início, a maioria tinha entre 45 e 55 anos. Em intervalos regulares, elas informavam aspetos de alimentação, saúde e estilo de vida - incluindo a quantidade de café e chá que consumiam.

A equipa procurou entender se, e de que maneira, o consumo dessas bebidas se relaciona, ao longo do tempo, com desempenho cognitivo. Não entraram na análise apenas café “normal”, mas também chá e café descafeinado.

"Pessoas com consumo moderado de café ou chá com cafeína apresentaram demência com menos frequência e tiveram melhor desempenho em testes de memória."

Ao longo de todo o período observado, pouco mais de 11.000 indivíduos desenvolveram demência. Para chegar às conclusões, os autores compararam grupos com padrões distintos de consumo de café e chá.

O quanto o risco de demência diminuiu

Na análise, surgiu uma ligação clara entre cafeína e saúde cerebral:

  • Quem bebia entre 1 e 5 xícaras de café por dia apresentou cerca de 18% menos risco de demência do que pessoas que raramente ou nunca tomavam café.
  • Quem consumia pelo menos 1 xícara de chá com cafeína por dia ficou em torno de 15% menos risco.
  • Em testes de memória, atenção e velocidade de raciocínio, consumidores de café e chá, na maioria das vezes, obtiveram resultados superiores.

Um ponto que chama atenção é que o padrão favorável apareceu tanto em pessoas com risco genético aumentado para demência quanto em pessoas sem historial familiar conhecido. Ou seja: a cafeína parece oferecer algum grau de proteção independentemente da predisposição individual de base.

Por que a cafeína parece ter um papel central

Estudos anteriores já sugeriam que café e chá poderiam beneficiar o cérebro. As explicações mais citadas passam por:

  • Polifenóis: compostos vegetais capazes de reduzir inflamações e proteger as células contra stress oxidativo.
  • Cafeína: estimula o sistema nervoso central, interfere em mensageiros como adenosina e dopamina e pode contribuir para a proteção das células nervosas.
  • Menos inflamação: processos inflamatórios crónicos são considerados um dos motores do declínio cerebral relacionado ao envelhecimento.

O que diferencia este trabalho de muitos estudos mais antigos é, sobretudo, a duração excepcionalmente longa e o número muito elevado de participantes. Pesquisas anteriores frequentemente esbarravam em períodos curtos de acompanhamento ou em registos incompletos sobre os hábitos reais de consumo.

Café descafeinado surpreende e não mostra o mesmo efeito

Há um detalhe que pode desagradar muita gente: nos dados, o café descafeinado não apresentou um efeito protetor comparável. Entre pessoas que consumiam predominantemente café descafeinado, não se observou um início significativamente mais tardio de demência.

"O fator de proteção parece estar claramente ligado à cafeína - o café descafeinado não trouxe uma vantagem mensurável para o cérebro no estudo."

Isso sugere que não são apenas outros componentes, como os polifenóis, que importam: a substância estimulante em si pode ser decisiva. Ainda assim, os investigadores reforçam que se trata de dados observacionais. Portanto, não existe, por enquanto, uma prova direta de causalidade.

Qual quantidade de café e chá parece ideal?

Outra questão relevante é a dose. No estudo, o panorama foi relativamente consistente: o benefício parece maior em quantidades moderadas.

  • Faixa ideal de café: aproximadamente 2 a 3 xícaras por dia
  • Faixa ideal de chá: aproximadamente 1 a 2 xícaras por dia
  • Acima desses intervalos, a vantagem observada vai diminuindo gradualmente

O médico envolvido na pesquisa, Daniel Wang, atribui isso à possibilidade de o organismo, a partir de certo ponto, ter mais dificuldade em lidar com a metabolização das substâncias bioativas. Quando isso acontece, o efeito pode perder força e eventuais efeitos adversos passam a pesar mais.

Quem não bebe deveria começar a tomar café ou chá?

A pergunta mais óbvia é se quem não gosta de café ou chá precisa, agora, sentir-se culpado. Nesse ponto, os resultados são mais tranquilizadores.

Para os autores, a leitura principal é de que os achados funcionam como um alívio para quem já aprecia o cappuccino diário ou uma chaleira de chá-preto e teme prejuízos a longo prazo. Em quantidades moderadas, os dados sugerem mais benefício do que dano.

"Café ou chá podem ser um componente da boa forma mental na velhice - mas nunca o único."

Há vários fatores já bem estabelecidos que influenciam a saúde do cérebro e, no dia a dia, podem ter impacto ainda maior do que a bebida no copo do pequeno-almoço:

  • atividade física suficiente e treino de força
  • alimentação equilibrada com muitos vegetais, frutas e grãos integrais
  • bom controlo da pressão arterial e da glicemia
  • contactos sociais e desafios cognitivos
  • sono adequado e redução do stress

O que o estudo não consegue responder

A pesquisa é observacional. Em outras palavras: nada foi imposto aos participantes; os investigadores apenas observaram, mediram e compararam. Pessoas que tomam café ou chá com frequência muitas vezes diferem também em outros aspetos do estilo de vida - por exemplo, escolaridade, condições de trabalho ou nível de atividade física.

Embora métodos estatísticos tentem ajustar essas diferenças, nunca é possível eliminar totalmente esse tipo de influência. Por isso, especialistas preferem dizer que os resultados estão “associados” e não que “causam” o efeito. A direção do achado parece plausível, mas não dá para cravar com absoluta certeza apenas com este tipo de desenho.

Riscos e limites do consumo de cafeína

Quem pensa em dobrar a dose deve considerar alguns pontos. A cafeína também pode desencadear ou agravar sintomas:

  • agitação, nervosismo, palpitações
  • dificuldade para dormir, sobretudo quando consumida mais tarde
  • problemas em casos de arritmias ou hipertensão não tratada
  • dores no estômago ou azia em pessoas sensíveis

Em especial, pessoas com doenças cardiovasculares ou gestantes devem discutir com um médico a quantidade mais adequada para o seu caso. O que para alguém funciona como um impulso de energia pode ser excesso para outra pessoa.

O que você pode tirar disso na prática

Se você já costuma beber 2 - no máximo 3 - xícaras de café por dia, ou começa a manhã com 1 a 2 xícaras de chá, há motivo para manter o hábito com mais tranquilidade. Os dados indicam que, nessa medida, o consumo não tende a prejudicar o cérebro a longo prazo e pode até ajudar.

Para quem não tolera cafeína ou prefere evitá-la por outros motivos, continuam existindo muitas alternativas eficazes. Apps de treino cerebral, palavras cruzadas, aprender uma nova língua, tocar um instrumento, dançar - tudo isso desafia a mente de maneira semelhante ao que o exercício físico faz com os músculos.

Também segue em aberto como futuros estudos vão avaliar efeitos combinados - por exemplo, a mistura de consumo moderado de cafeína, alimentação com inspiração mediterrânica e treino de memória direcionado. Muitos neurologistas suspeitam que “pacotes” desse tipo façam a maior diferença no longo prazo, quando o objetivo é manter a clareza mental pelo maior tempo possível.

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