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Paella e cocido madrileño viram patrimônio cultural imaterial na Espanha

Homem serve paella para duas idosas em mesa ao ar livre em praça com decoração espanhola.

Na Espanha, um prato de arroz de Valência e um ensopado encorpado de Madri acabam de ultrapassar, de vez, o rótulo de “comida favorita”. O poder público passou a tratá-los como patrimônio cultural a ser protegido - no mesmo espírito com que se preservam festas tradicionais, ofícios artesanais ou canções populares. A decisão, porém, vai muito além de exaltar a boa mesa.

Mais do que cozinha: quando a comida vira patrimônio cultural

Falar em “culinária espanhola” como se fosse uma coisa só é ignorar o quanto o país se alimenta de forma regional. Paella de Valência, tortilla de patatas, presunto ibérico, tapas, gazpacho andaluz: cada território sustenta as próprias especialidades com convicção e orgulho.

É justamente essa identidade local que a Espanha agora coloca, oficialmente, sob os holofotes. A paella e o ensopado tradicional madrilenho receberam o reconhecimento de “Bien de Interés Cultural” (BIC), na categoria de patrimônio cultural imaterial. Nesse enquadramento, não entram prédios ou monumentos, mas práticas vivas, como:

  • receitas e técnicas de preparo transmitidas ao longo do tempo
  • rituais de comer em conjunto em famílias e bairros
  • saberes que, em geral, passam de geração em geração de forma oral
  • costumes sociais ligados a datas festivas e aos almoços de domingo

“Paella e ensopado madrilenho são reconhecidos oficialmente como parte da identidade espanhola - não apenas como pratos, mas como tradição vivida.”

O respaldo vem de uma lei de 2015 que menciona explicitamente a gastronomia espanhola como possível componente do patrimônio cultural imaterial. Em outras palavras, o legislador estabelece que o que se come, como se come e com quem se come influencia a vida em sociedade tanto quanto a arquitetura ou a pintura.

Paella: símbolo de convivência e raízes regionais

A paella abriu caminho. Em 2021, o prato de arroz típico da Comunidade Valenciana já havia conquistado o status de BIC. Sua origem é a de uma refeição simples de trabalhadores do campo: arroz, alguns vegetais e, com o tempo, frango, coelho e, ocasionalmente, caracóis - tudo preparado numa panela rasa, sobre fogo aberto.

Com as décadas, o prato se consolidou como um emblema de comer junto, especialmente ao ar livre. Quem já passou um domingo em Valência reconhece a cena: grupos grandes ao redor da mesa, a paellera no centro e cada pessoa se servindo diretamente dali. A paella representa, entre outros aspectos:

  • compartilhamento, em vez de porções individuais
  • preparo cuidadoso e demorado, sem pressa
  • rotinas de fim de semana que ganham caráter de celebração em muitas famílias

Por isso, o reconhecimento oficial não se limita à lista de ingredientes. O que se protege é todo o universo cultural do prato: do cultivo de arroz na região às panelas adequadas, passando por festas de vilarejo em que paellas gigantes cozinham do lado de fora.

Cocido madrileño: o clássico de domingo vira bem cultural

Depois da paella, chegou a vez do ensopado madrilenho, conhecido na Espanha como “cocido madrileño”. A Comunidade de Madri justifica o reconhecimento com sua “história de mais de 150 anos” na comida cotidiana da capital e com o papel do prato como refeição comunitária, típica de encontros entre família e amigos.

A base do cocido é simples: poucos ingredientes acessíveis e muitas horas de panela. Entre os elementos mais comuns estão:

  • combinação de diferentes carnes, como boi, frango e porco
  • vegetais como repolho, cenoura e alho-poró
  • grão-de-bico para sustância
  • um caldo aromático que cozinha lentamente por bastante tempo

Para muitos madrilenhos, ele tem “cara” de domingo: o almoço é marcado, o ensopado ficou horas no fogo e o cheiro toma a casa inteira. Em alguns restaurantes tradicionais, o serviço segue até um ritual em etapas - primeiro o caldo como sopa, depois os vegetais e o grão-de-bico e, por fim, as carnes.

“O ensopado madrilenho é considerado um ‘elemento de sociabilidade e tradição compartilhada’ - um prato familiar clássico que reúne as pessoas à mesa.”

Foi exatamente esse componente social que pesou para especialistas. A intenção não é apenas celebrar o sabor do prato, e sim evitar que a prática de cozinhar e comer junto vá desaparecendo, pouco a pouco, do dia a dia.

Por que o status de proteção é necessário

Antropólogas que estudam patrimônio cultural imaterial insistem num ponto: reconhecimento não pode virar apenas um selo para folhetos bem produzidos. Ele precisa apontar riscos reais e acionar medidas de salvaguarda.

No caso de pratos tradicionais, profissionais identificam várias ameaças:

  • Padronização pela produção em massa: versões prontas e aceleradas vão substituindo, aos poucos, o preparo caseiro mais trabalhoso.
  • Perda de conhecimento: gerações mais novas cozinham menos com avós e pais, e receitas acabam se perdendo.
  • Simplificação para turistas: em áreas turísticas, proliferam “paellas para todo mundo” que quase não dialogam com a tradição regional.

É justamente aí que a classificação como BIC busca atuar. Autoridades, entidades do setor e municípios podem organizar iniciativas de resposta - como aulas de culinária em escolas, festivais dedicados a receitas tradicionais, apoio a pequenos negócios ou selos de qualidade.

O que muda na prática para a Espanha

O novo enquadramento não significa que, de repente, a paella e o cocido madrileño só possam ser feitos seguindo regras rígidas. A lógica é criar condições para que as raízes não se percam. Entre as possibilidades, estão:

  • criação de arquivos com variações de receitas e relatos de testemunhas
  • proteção de determinadas denominações contra uso enganoso
  • programas de incentivo para restaurantes que cozinham por métodos tradicionais
  • promoção direcionada desses pratos dentro do turismo cultural

Ao mesmo tempo, o status pode abrir portas econômicas. Cidades como Valência e Madri ganham mais um argumento para atrair viajantes interessados em gastronomia. Roteiros por mercados, cursos de culinária e noites temáticas em restaurantes tendem a ganhar importância.

O que turistas alemães e cozinheiros amadores podem levar dessa história

Para quem viaja a partir de países de língua alemã, essa valorização tende a mudar o olhar. Ao comer na Espanha, não se trata apenas de pedir “um arroz” ou “um ensopado qualquer”, mas de experimentar pratos com reconhecimento oficial de patrimônio. Isso ajuda a prestar atenção em:

  • onde comer - preferir locais tradicionais, em vez de armadilhas para turistas
  • como comer - desacelerar, compartilhar e perguntar
  • o que há por trás - produtos regionais, histórias de família e costumes locais

Em casa, também dá para aplicar a ideia. Quem mantém um prato clássico de domingo na própria família - seja assado de carne, ensopado de lentilhas ou spätzle com queijo - faz, em escala menor, o mesmo movimento que a Espanha está formalizando: tratar receitas do cotidiano como parte da própria identidade.

Patrimônio cultural imaterial: bem mais do que folclore

A expressão “patrimônio cultural imaterial” parece técnica, mas aponta para algo bastante cotidiano: práticas que as pessoas fazem, e não coisas de pedra. Entram aí festas, música, costumes - e, claro, a comida. A Unesco e órgãos nacionais procuram preservar tradições vivas sem “engessá-las” em museus.

É nessa fronteira que surge a tensão: pratos como a paella e o cocido madrileño precisam poder evoluir, mas sem perder o que os define. Pequenas variações, ingredientes novos ou apresentações criativas são aceitáveis, desde que o núcleo permaneça: cozinhar em conjunto, vínculo regional e respeito aos produtos.

Para a Espanha, as decisões funcionam como um recado interno e externo: comer não é um prazer secundário, e sim um elemento da identidade nacional. E, para quem gosta de viajar ou cozinhar, esse movimento mostra como um tacho de arroz ou um ensopado é capaz de contar histórias - sobre passado, vida social e tudo aquilo que mantém as pessoas unidas ao redor da mesa.

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