Em um estudo no Japão, investigadores acompanharam milhares de pessoas idosas por vários anos - e chegaram a um resultado que chama atenção: quem consome queijo com regularidade tende a desenvolver demência com menos frequência. Não se trata de uma “cura”, mas pode ser mais um componente relevante, especialmente num contexto de envelhecimento populacional.
Demência como desafio global
A demência já se consolidou como uma das maiores questões médicas do nosso tempo. Hoje, mais de 50 milhões de pessoas convivem com a condição, e projeções indicam que esse número pode triplicar até 2050. Os medicamentos disponíveis geralmente só conseguem desacelerar o avanço de forma modesta, e ainda não existe cura.
Por isso, uma pergunta ganha cada vez mais espaço: de que modo o risco pode ser influenciado no dia a dia? Atividade física, controlo da pressão arterial e convívio social são pontos frequentemente citados. O estudo japonês acrescenta que certos alimentos também podem entrar nessa equação - incluindo um clássico de muitas mesas: o queijo.
Estudo japonês de longo prazo: quem come queijo adoece menos
A análise usou dados do programa nacional JAGES (Japan Gerontological Evaluation Study). Participaram 7.914 pessoas com 65 anos ou mais que, no início, viviam em casa e não tinham necessidade de cuidados formalmente reconhecida.
Para comparar os grupos, os investigadores separaram as pessoas em dois perfis:
- Grupo 1: consome queijo pelo menos uma vez por semana
- Grupo 2: nunca consome queijo
Em seguida, aplicaram métodos estatísticos para deixar os grupos o mais semelhantes possível em aspetos como idade, sexo, renda, escolaridade, autoavaliação da saúde e capacidade para atividades do quotidiano. A ideia era chegar a uma comparação mais justa.
Durante cerca de três anos, observaram em quem surgia um novo diagnóstico de demência. O critério foi baseado em classificações oficiais do sistema de seguro de cuidados de longo prazo, um indicador bastante usado no Japão.
"No grupo do queijo, 3,4% das pessoas desenvolveram demência - no grupo sem queijo, foram 4,5%."
Na prática, isso equivale a uma redução do risco relativo em 24%. À primeira vista pode parecer pouco, mas, numa população que envelhece, diferenças assim podem gerar impacto. Ainda assim, é essencial frisar: trata-se de uma associação, não de uma prova de causa e efeito.
Por que o queijo poderia beneficiar o cérebro
Os autores citam explicações biológicas plausíveis, apoiadas por resultados de outras pesquisas. O trabalho japonês, porém, não mediu diretamente esses mecanismos; ele apenas interpreta a observação à luz do que já se conhece.
Vitaminas e vasos sanguíneos: proteção via circulação
O queijo fornece, entre outros nutrientes, a vitamina K2 - uma vitamina lipossolúvel que participa de processos ligados à saúde vascular. Vasos em bom funcionamento são fundamentais para o cérebro. Estreitamentos, calcificação, hipertensão: tudo isso eleva o risco de algumas formas de demência, sobretudo a chamada demência vascular.
A vitamina K2 ajuda a regular a deposição de cálcio nas paredes dos vasos e, com isso, pode contribuir para mantê-los mais elásticos. Indiretamente, isso pode favorecer a irrigação do cérebro e proteger células nervosas.
Proteínas, peptídeos e inflamação
O queijo concentra proteína de boa qualidade e aminoácidos importantes. Esses componentes são necessários para produzir neurotransmissores e outras moléculas envolvidas na comunicação entre neurónios. Um ponto particularmente interessante são certos fragmentos de proteínas, chamados peptídeos bioativos, que podem surgir durante a maturação.
Em estudos de laboratório e em animais, alguns desses peptídeos mostram, em parte:
- efeitos anti-inflamatórios
- ação antioxidante
- influência positiva sobre pressão arterial e metabolismo
Inflamação crónica e stress oxidativo são considerados motores relevantes do declínio cognitivo com o avançar da idade. Se o queijo contribuir, ainda que discretamente, para reduzir esses fatores, o efeito acumulado pode aparecer ao longo do tempo.
Eixo intestino-cérebro: o que o queijo tem a ver com o microbioma
Queijos fermentados, como Camembert ou Brie, podem conter microrganismos vivos. Eles são capazes de influenciar o microbioma intestinal - isto é, o conjunto de bactérias no intestino. A partir daí surge outro possível mecanismo de proteção: muitos estudos associam a composição do microbioma a doenças neurológicas, incluindo Alzheimer.
Um detalhe relevante: no estudo japonês, a maioria das pessoas consumia sobretudo queijo processado (como queijo fundido e produtos semelhantes). Cerca de 83% relataram preferir esse tipo. Apenas perto de 8% optavam por queijos de mofo branco. Mesmo assim, a associação com menor risco de demência apareceu.
"O efeito aparece mesmo em uma população que consome pouco queijo tradicional - e recorre principalmente a produtos processados."
Isso sugere que pode haver uma combinação de fatores: nutrientes de laticínios, o restante do padrão alimentar e, possivelmente, outros componentes ainda não totalmente identificados.
O queijo reflete apenas um estilo de vida mais saudável?
Quem come queijo muitas vezes também tem outros hábitos. No estudo japonês, o grupo que consumia queijo também relatou maior ingestão de frutas, legumes, carne ou peixe - alimentos frequentemente ligados a um envelhecimento cerebral mais favorável.
Para colocar isso em perspectiva, os investigadores incluíram esses padrões alimentares num modelo estatístico mais completo. O efeito diminuiu um pouco, mas permaneceu bem visível:
| Cenário | Redução de risco em quem consome queijo |
|---|---|
| Sem considerar a alimentação restante | 24 % menor risco relativo |
| Considerando a alimentação restante | 21 % menor risco relativo |
Com isso, torna-se mais provável que o queijo não seja apenas um “marcador” de um estilo de vida globalmente melhor, mas que possa ter um contributo próprio - ainda que não seja enorme.
Outro ponto é a quantidade consumida: a maioria comia queijo uma ou duas vezes por semana. O estudo não descreve consumo diário. Ou seja, uma porção moderada já parece suficiente para produzir diferenças mensuráveis em termos populacionais.
Quão confiáveis são esses resultados?
Apesar da análise cuidadosa, o estudo é observacional. Isso impõe limites importantes:
- O consumo de queijo foi registado apenas uma vez, no início; mudanças ao longo dos anos não foram consideradas.
- Não houve registo de quantidades exatas - uma fatia pequena contou do mesmo modo que uma porção maior.
- A identificação de demência veio de dados administrativos, e não de avaliações clínicas detalhadas com subtipos.
- Fatores genéticos, como o gene de risco APOE ε4, não entraram na análise.
- O Japão tem consumo tradicionalmente baixo de queijo; diferenças pequenas podem ter mais peso ali do que em países onde o alimento é mais comum.
Por isso, os próprios autores deixam claro: ninguém deve interpretar os dados como um “passe livre” para aumentar o queijo como se fosse uma forma de se “vacinar contra a demência”. O tema é uma entre muitas alavancas que, em conjunto, podem fazer diferença.
O que isso significa no dia a dia - especialmente no Brasil?
Em comparação com o Japão, o queijo costuma ser um alimento presente na rotina de muitas pessoas no Brasil, seja no pão, em receitas ou em preparações gratinadas. A questão mais interessante é: a associação observada também se aplica quando o consumo já é comum - ou o possível benefício se estabiliza a partir de certo ponto?
Ainda não há resposta definitiva. Mesmo assim, algumas implicações são razoáveis:
- Os dados apontam mais para consumo regular e moderado, e não para quantidades exageradas.
- Queijos mais maturados e fermentados tendem a trazer mais compostos bioativos, mas muitas vezes também têm mais gordura e sal.
- Quem já consome muitas gorduras saturadas ou tem questões com colesterol deve olhar para o conjunto da dieta.
Para muitas pessoas, pode fazer sentido inserir o queijo dentro de um padrão alimentar de inspiração mediterrânea: muitos vegetais, leguminosas, peixe, azeite - e laticínios escolhidos com atenção.
Queijo, risco e equilíbrio: no que prestar atenção
Por mais atraente que seja a ideia de um lanche “amigo do cérebro”, ela tem limites. Queijos podem conter bastante sal, gordura saturada e calorias. Quem tem tendência a hipertensão ou já convive com problemas cardiovasculares deve conversar com médica ou médico antes de aumentar muito as porções.
Uma estratégia prática para o quotidiano pode ser:
- manter porções pequenas como parte da refeição, em vez de grandes excessos
- escolher com mais frequência tipos menos industrializados e bem maturados
- combinar queijo com vegetais frescos, pão integral ou saladas
- acompanhar, no geral, peso, pressão arterial e glicemia
Quem não gosta de queijo, ou evita por motivos de saúde ou ética, não fica automaticamente em desvantagem. Vários mecanismos sugeridos - como modulação de inflamação e influência no microbioma - também podem ser abordados com outros alimentos: vegetais fermentados, iogurte, leguminosas, castanhas e peixe são alguns exemplos.
O principal recado do estudo japonês é este: escolhas rotineiras à mesa podem influenciar o risco de demência. Nesse quadro, o queijo aparece como uma peça pequena, porém intrigante - não como protagonista, mas como possível aliado dentro de uma estratégia mais ampla de proteção do cérebro que envelhece.
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