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Comer rápido e mentalidade de escassez: por que parece que a comida vai acabar

Homem sentado à mesa olhando para prato com comida quente e fumegante na cozinha.

Três amigas, a mesma massa, o mesmo vinho, o mesmo brilho de velas. Ainda assim, só um prato já estava raspado, vazio, antes mesmo de alguém encostar na cesta de pães. Quando notaram, ela fingiu que era piada. “Eu só como rápido”, disse, girando o garfo entre os dedos e procurando com os olhos o cardápio de sobremesas. As outras ainda conversavam. Ainda sentiam o sabor. Ainda estavam ali.

Mais tarde, a caminho de casa, ela percebeu que não lembrava do gosto do molho. Só daquela urgência conhecida. A necessidade de chegar primeiro, de terminar tudo, de calar aquele medo pequeno e afiado de que o que está diante dela pode sumir se ela não se apressar.

Por que algumas pessoas comem como se a comida fosse acabar, mesmo quando a mesa está cheia?

Quando o garfo vai mais rápido que o pensamento: comer rápido e mentalidade de escassez

Basta observar um grupo à mesa para identificar na hora: quem termina depressa. Essas pessoas limpam o prato enquanto o restante ainda está no meio da refeição. Cortam a comida em pedaços miúdos, com movimentos acelerados, quase como se estivessem seguindo um cronômetro invisível.

Nem sempre são as que mais estão com fome. Muitas vezes, são justamente as que chegaram ao jantar já satisfeitas por causa do almoço ou daquele café do meio da tarde. Mesmo assim, parece haver algo nelas programado para correr com o que está no prato, como se diminuir o ritmo fosse arriscado. Por fora, pode parecer só um costume. Por baixo, se aproxima muito mais de um modo de sobrevivência.

Uma mulher que entrevistei contou que cresceu numa casa barulhenta e cheia, em que o jantar significava pegar o que desse. “Se você comia devagar, ia dormir com fome”, ela me disse. Hoje, aos 38, tem um trabalho estável, uma geladeira bem abastecida e uma padaria de pão de fermentação natural favorita na esquina. A vida dela não tem nada a ver com aquela cozinha apertada que ela guarda na memória.

Mesmo assim, toda vez que a comida chega à mesa, os ombros dela travam. Ela come depressa no trabalho, em encontros, até sozinha, apoiada na bancada da cozinha. A cabeça sabe que há mais comida no armário. O corpo ainda não recebeu o recado. Ela sorriu ao contar isso, mas, enquanto falava, as mãos torciam o guardanapo.

Pesquisas sobre velocidade ao comer costumam se concentrar em peso ou digestão, mas encostam em algo mais fundo. Comer rápido aparece com frequência ligado a regras da infância, estresse financeiro ou longos períodos sem saber quando viria a próxima refeição. Esse velho alerta de escassez não desaparece só porque a despensa hoje é diferente. Ele se esconde em hábitos pequenos: lamber o prato até ficar limpo, ansiedade quando os outros pegam “demais”, um alívio que só chega quando tudo termina.

A mentalidade de escassez não é apenas sobre ter pouco. É sobre sentir


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