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Ensaio com 1.600 pessoas indica que o comprimido GLP-1 orforglipron se compara à semaglutida injetável no diabetes tipo 2

Mulher sentada à mesa com prato saudável, tomando remédio, fita métrica e monitor de glicemia ao lado.

Um grande ensaio clínico recente, com mais de 1.600 participantes, concluiu que uma versão em comprimido de GLP-1 do medicamento orforglipron apresenta desempenho muito próximo ao da semaglutida injetável em pessoas com diabetes tipo 2.

Após 72 semanas de acompanhamento, em 136 centros distribuídos por 10 países, a equipa liderada pela especialista em medicina da obesidade Deborah Horn, da Universidade do Texas, relatou que os participantes em uso da dose mais alta perderam, em média, 9,6% do peso corporal.

Esse resultado fica alinhado à perda de massa corporal de cerca de 10% a 15% frequentemente observada em pessoas com diabetes que utilizam semaglutida injetável por um período semelhante.

"No geral", escrevem os investigadores no artigo, "os resultados indicam que o orforglipron pode atender à necessidade não satisfeita de uma terapia oral ao alcançar desfechos semelhantes aos dos agonistas do recetor de GLP-1 injetáveis, potencialmente mudando paradigmas de tratamento".

Como os medicamentos GLP-1 atuam no organismo

Os medicamentos GLP-1 tiram proveito de processos naturais do corpo que ajudam a reduzir o apetite após a refeição. Ao comer, o intestino libera uma hormona chamada peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), que ativa recetores em diferentes órgãos. Quando esses recetores são acionados, ocorrem vários efeitos: a fome diminui, o pâncreas aumenta a libertação de insulina e reduz a de glucagon, e a digestão desacelera - o que faz com que a glicose no sangue suba de forma mais gradual.

Esses fármacos são versões sintéticas que imitam essa hormona e ativam os mesmos caminhos biológicos, ajudando pessoas com diabetes a controlar a glicemia e, mais recentemente, contribuindo também para a perda de peso.

Até aqui, porém, esse tipo de tratamento só podia ser aplicado por injeção. Por serem peptídeos, essas moléculas se degradam depressa no ácido do estômago, o que inviabiliza uma formulação oral.

Orforglipron: um GLP-1 oral (não peptídico) e o que já se sabia

O orforglipron, por outro lado, não é um peptídeo - ainda assim, ativa o mesmo recetor do GLP-1. Além disso, é absorvido no trato digestivo como um medicamento mais convencional.

Os sinais de eficácia, até agora, vinham sendo animadores: um ensaio clínico anterior, com 3.127 pessoas com obesidade (mas sem diabetes), apontou uma redução média de 12,4% do peso corporal.

O ensaio em diabetes tipo 2: desenho do estudo e principais resultados

O novo estudo foi planeado para entender o comportamento do orforglipron em pessoas com diabetes tipo 2. Ao todo, participaram 1.613 pessoas já diagnosticadas e classificadas como com excesso de peso ou obesidade. A idade média foi de 57 anos, e o peso médio foi de 101 kg (223 libras).

Os participantes foram distribuídos em quatro grupos. Um deles recebeu placebo, sem ingredientes ativos, para servir de controlo. Os outros três grupos tomaram orforglipron nas doses de 6, 12 ou 36 miligramas. Durante 72 semanas, cada pessoa ingeriu diariamente o comprimido definido para o seu grupo, mantendo uma dieta com redução de 500 calorias em relação ao padrão inicial.

Nem os investigadores nem os participantes sabiam qual comprimido cada indivíduo estava a tomar - um método duplo-cego, usado para diminuir vieses na interpretação dos resultados.

Os números foram claros. Em média, o grupo que tomou 36 miligramas perdeu 9,6% do peso corporal, o que corresponde a cerca de 9,6 kg. No grupo de 12 miligramas, a perda média foi de 7%; no de 6 miligramas, de 5,1%. Já o grupo placebo teve, em média, uma redução de 2,5%.

Um dado chamativo: 26% das pessoas na dose mais alta perderam mais de 15% do peso corporal.

Além do peso, outros marcadores de saúde também melhoraram. Indicadores de controlo de glicemia mostraram melhora significativa em todas as doses de orforglipron quando comparadas ao placebo, e marcadores relacionados ao coração, à inflamação e à pressão arterial também apresentaram melhora. Os efeitos adversos foram semelhantes aos vistos com GLP-1 injetáveis: náusea, diarreia, vómitos e prisão de ventre - algo esperado, considerando o mecanismo do medicamento.

O orforglipron não alcança a mesma eficácia de uma injeção semanal de 15 miligramas do medicamento GLP-1 tirzepatida, que em um ensaio clínico anterior demonstrou uma perda média de 14,7% do peso corporal em participantes com diabetes. Ainda assim, a praticidade, o conforto e a acessibilidade de um comprimido podem fazer com que essa diferença de efeito seja um compromisso aceitável para algumas pessoas.

"Sabemos que é mais difícil para pessoas com diabetes perder peso. É empolgante ter um medicamento oral que proporciona perda de peso em dois dígitos, que em média foi de 23 libras", diz Horn.

"Quando aprovado pela FDA, o orforglipron está previsto para ficar disponível em 2026 a um custo significativamente menor em comparação com os injetáveis atuais. Isso pode posicioná-lo como a 'metformina' da obesidade e fazer com que seja amplamente coberto por planos de saúde, abrindo a porta do tratamento para todos".

A pesquisa teve financiamento da farmacêutica Eli Lilly e foi publicada na revista The Lancet.

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