Agora, um experimento indica o quanto paredes com plantas podem modificar a qualidade do ar.
Quando se fala em poluição do ar, muita gente pensa logo em avenidas congestionadas, chaminés industriais ou dias de smog. Só que uma parcela enorme do problema está onde menos se espera: dentro de casa, em escritórios e em salas de aula. Um grupo de pesquisa de Sevilha avaliou, em condições controladas, até que ponto paredes internas verdejadas conseguem conter esse risco invisível. Os resultados são surpreendentemente expressivos - e têm potencial para influenciar a forma como edifícios são concebidos.
Quando a casa faz mal
Tintas, vernizes, painéis de madeira reconstituída, carpetes, sprays perfumados, produtos de limpeza, lareiras, fumaça de cigarro e até vapores do cozimento: tudo isso libera substâncias que acabam sendo respiradas. Muitas vezes não têm cheiro, mas isso não significa que sejam inofensivas. Em ambientes fechados, não é raro surgirem queixas como dor de cabeça, cansaço, irritação nos olhos e dificuldade de concentração. Especialistas agrupam esse conjunto de sintomas sob o nome de “síndrome do edifício doente” (Sick-Building-Syndrom) - o prédio que adoece.
Uma parte importante dos responsáveis são os chamados compostos orgânicos voláteis, os VOC (do inglês “volatile organic compounds”). Um exemplo é o formaldeído, presente em diversos materiais à base de madeira e considerado cancerígeno. Além disso, há poluentes gasosos como o dióxido de nitrogênio, ligado a processos de combustão, e o dióxido de enxofre. Abrir as janelas ajuda, mas em construções muito bem vedadas e com isolamento intenso, isso frequentemente não resolve.
Pesquisadores testam paredes com plantas em uma câmara de vidro
Foi justamente aí que a proposta dos cientistas de Sevilha entrou em cena. Eles montaram um habitat de vidro totalmente fechado, instalaram em uma das faces um sistema de plantas em formato vertical e expuseram a câmara, de propósito, a diferentes contaminantes do ar. A ideia era simples: quantificar com que rapidez e com que intensidade esse tipo de parede verde diminui a concentração das substâncias.
Eles trabalharam com gases típicos de problemas em ambientes internos: dióxido de nitrogênio, dióxido de enxofre e vários VOC, como formaldeído e acetona. Em seguida, os pesquisadores introduziram quantidades definidas desses compostos no ar da câmara e acompanharam as medições ao longo de 24 horas.
“Depois de um dia, entre 96 e 98 por cento dos poluentes adicionados tinham desaparecido - apenas por ação da parede coberta por plantas.”
Nem a própria equipe esperava uma diferença tão grande. Pelas contas, após 24 horas sobra apenas uma fração pequena do que havia sido introduzido inicialmente. Para locais onde as pessoas passam muitas horas por dia, isso pode representar uma mudança relevante.
O efeito turbo: queda nítida já após 15 minutos
O que chama atenção não é apenas o resultado final, mas a velocidade do processo. Segundo as medições, apenas quinze minutos depois da introdução dos poluentes, a concentração já tinha caído de cerca de um quarto até quase a metade.
- após 15 minutos: menos 24 a 40 por cento
- após 1 hora: dependendo da planta, em alguns casos uma redução ainda mais forte
- após 24 horas: 96 a 98 por cento menos poluentes
Na prática, isso significa que esses sistemas não funcionam só no longo prazo: eles também podem melhorar o ar com relativa rapidez durante o uso normal do espaço, como depois de cozinhar ou ao longo de um dia de trabalho em um escritório aberto.
Quais plantas retiram mais poluentes do ar?
Em vez de usar um conjunto aleatório de espécies, os pesquisadores selecionaram cinco tipos específicos, comuns no mercado de plantas para interiores:
- Spathiphyllum wallisii (geralmente vendida como lírio-da-paz)
- Tradescantia zebrina
- Philodendron scandens
- Ficus pumila
- Chlorophytum comosum (clorofito, conhecida como “planta-aranha”)
As medições mostraram diferenças claras de desempenho. Certas espécies capturam alguns poluentes muito melhor do que outras. O lírio-da-paz, por exemplo, apresentou um efeito marcante contra o dióxido de nitrogênio.
“O lírio-da-paz reduziu a concentração de dióxido de nitrogênio em cerca de 60 por cento dentro de uma hora.”
Já no caso do formaldeído, outras plantas se destacaram mais: o clorofito foi o que mais chamou atenção por diminuir a substância perigosa com rapidez. É isso que torna a aplicação tão interessante: a melhor parede verde não depende de uma única “planta favorita”, e sim de uma combinação planejada, alinhada aos contaminantes mais prováveis de cada ambiente.
Por que as plantas conseguem fazer isso
As plantas absorvem gases pelas folhas e, em parte, também pelas raízes. Muitos poluentes são transformados no interior do organismo vegetal ou convertidos em compostos menos problemáticos. Ao mesmo tempo, a camada de solo ou de substrato por trás da parede verde tem um papel essencial: microrganismos presentes ali degradam substâncias químicas que antes se acumularam na superfície das raízes.
Quanto maior a área foliar e quanto mais densa a vegetação, maior a área de contato com o ar do ambiente. Sistemas verticais aproveitam isso ao máximo, porque uma parede oferece muito mais superfície do que alguns vasos espalhados pela janela.
Não é milagre, mas é um complemento forte à tecnologia
Apesar dos números impressionantes, os autores do estudo alertam para não criar expectativas irreais. Uma parede com plantas não substitui ventilação adequada, entrada suficiente de ar externo nem filtros em locais com carga elevada de poluição. A proposta é funcionar como um reforço natural e contínuo, sem depender de alguém ligar um equipamento.
Esse tipo de solução tende a ser especialmente útil em:
- escritórios abertos e centrais de atendimento com muita gente
- escolas e creches, onde crianças permanecem por longos períodos
- apartamentos com pouca possibilidade de ventilação (por exemplo, em ruas muito barulhentas)
- salas de espera em consultórios e em serviços públicos
Além do efeito mensurável na limpeza do ar, a vegetação traz ganhos visuais e psicológicos: muitas pessoas consideram ambientes com plantas mais agradáveis, o que pode reduzir estresse e favorecer a atenção. Em contextos de estudo e trabalho, esse benefício extra não é desprezível.
Como colocar uma parede com plantas em prática
Para aplicar a ideia em casa, não é obrigatório investir em uma instalação cara e especializada. Existem sistemas modulares com irrigação integrada, mas também alternativas simples, como bolsos de plantio ou estruturas com prateleiras. O que mais importa é:
- manter um número alto de plantas ocupando pouca área no piso
- usar um substrato que ofereça espaço para raízes e microrganismos
- combinar espécies com diferentes “especializações”
- cuidar com regularidade para que as plantas permaneçam saudáveis
Quem quer dar atenção especial a poluentes como o formaldeído pode priorizar espécies já conhecidas como “purificadoras” do ar, como o clorofito, tipos de hera e alguns filodendros. Para dióxido de nitrogênio e outros gases ligados a combustão, o lírio-da-paz e plantas trepadeiras podem complementar bem.
O que o estudo não responde - e o que ainda importa
O teste conduzido em Sevilha foi feito em laboratório, dentro de uma câmara de vidro fechada. No dia a dia, entra ar novo o tempo todo, portas são abertas e fechadas e as pessoas se movimentam. Por isso, os percentuais observados não podem ser transferidos de forma automática para qualquer residência.
Ainda assim, o trabalho aponta algo importante: paredes internas com vegetação não são só decoração, mas uma ferramenta real contra poluentes do ar. Quando combinadas com ventilação moderna e escolhas mais conscientes (menos solventes, móveis com baixa emissão de poluentes, evitar sprays perfumados intensos), elas compõem um conjunto de medidas capaz de elevar de forma significativa a qualidade do ar em ambientes internos.
Para arquitetos, profissionais de sistemas prediais e empregadores, isso abre possibilidades interessantes: em vez de depender apenas de mais filtros e sensores, elementos vivos podem entrar diretamente no planejamento dos espaços. E, considerando que a maior parte do dia costuma ser passada em ambientes fechados, apostar nisso cedo pode significar menos problemas depois.
No longo prazo, novos estudos podem mostrar como diferentes combinações de espécies se comportam em escritórios, escolas ou casas em uso real. Quanto mais claro ficar qual planta retém melhor cada substância, mais preciso será o projeto de paredes verdes. O ponto já evidente é que a vegetação em ambientes internos vai muito além de uma moda do design de interiores - ela ataca um problema de saúde relevante na raiz.
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