A primavera chega, o sol aparece e os passeios ficam mais longos - e muitos cães parecem ganhar energia extra lá fora. De repente, porém, o tutor nota o animal esfregando a boca na relva repetidas vezes ou passando as patas dianteiras com insistência pelo focinho. Muita gente pega o telemóvel nessa hora porque a cena parece “fofa”. Só que, na prática, esse comportamento muitas vezes aponta para um problema sério de saúde, capaz de causar dor intensa e comprometer a qualidade de vida do cão.
Por que esse “coçar o rosto” pode ser um pedido de ajuda
Quem convive com cães costuma interpretar gestos como se fossem manias ou “jeitinhos” engraçados. Uma patada na boca? É fácil achar que é só uma peculiaridade. Do ponto de vista veterinário, porém, o mais comum é o cão estar a tentar alcançar algo que o incomoda profundamente - e que ele não consegue atingir de forma directa.
Em muitos casos, o problema não está do lado de fora, e sim dentro da cavidade oral. A dor nasce ali, de forma profunda e persistente. Então, esfregar o focinho no chão ou “massagear” a boca com as patas vira uma tentativa desesperada de aliviar o sofrimento.
Quem vê o cão a coçar o focinho com frequência e de forma chamativa não deveria achar graça, e sim verificar - ou ligar directamente para a clínica veterinária.
A doença muito comum (e subestimada) dentro da boca do cão
Uma das explicações mais frequentes para esse tipo de comportamento é uma condição que muitos tutores minimizam: a periodontite, isto é, a inflamação do aparelho de sustentação dos dentes. O que começa de forma aparentemente inofensiva, com um pouco de placa, pode evoluir aos poucos para um quadro importante em toda a boca.
De acordo com dados da medicina veterinária, cerca de 80% dos cães com mais de três anos têm periodontite. Restos de alimento, saliva e bactérias formam primeiro a placa bacteriana e, depois, o tártaro endurecido. Com o tempo, os microrganismos avançam para debaixo da gengiva e danificam as estruturas que mantêm os dentes fixos no osso.
No início, o cão pode quase não demonstrar desconforto. Mas, à medida que a doença progride, a dor aumenta. É justamente nessa fase que muitos animais passam a esfregar o rosto de maneira evidente ou a “trabalhar” a região da boca com as patas.
Cinco sinais inequívocos: como o cão mostra que está a sofrer
Esfregar o focinho com as patas é apenas uma peça do quadro. Para perceber se há sofrimento na boca, vale observar um conjunto de sinais.
Sinal 1: Esfregar ou rolar a boca com frequência
O cão passa as patas pelo focinho repetidas vezes, esfrega o rosto no tapete, no sofá ou na relva. Alguns chegam a pressionar propositadamente um lado da boca contra o chão. Em geral, é um comportamento repetitivo e por vezes agitado - muito mais do que uma “limpeza rápida” ocasional.
Sinal 2: Mau hálito forte
É normal que o hálito do cão não seja “cheiro de menta”. Ainda assim, quando o odor fica de repente muito forte - com cheiro a podre, metálico ou extremamente intenso - quase sempre existe uma inflamação bacteriana por trás. As bactérias presentes no tártaro e nas bolsas gengivais libertam gases que saem pela boca como mau cheiro.
Sinal 3: Dificuldade para mastigar e recusa de comida
Muitos tutores só percebem que há algo errado neste ponto. O cão deixa a ração no pote, selecciona pedaços, mastiga de forma estranha (muito devagar) ou passa a usar apenas um lado. Há animais que engolem a ração seca quase sem mastigar, porque cada mordida dói.
Sinal 4: Gengiva vermelha, inchada ou com sangramento
Quem conseguir, pode levantar os lábios com cuidado e observar dentes e gengiva. Na periodontite, são comuns:
- gengiva bem avermelhada
- inchaço junto à linha dos dentes
- marcas de sangue nos dentes ou nos brinquedos
- retração gengival, deixando o “pescoço” do dente exposto
Às vezes, um toque leve já provoca sangramento - um sinal claro de doença.
Sinal 5: Dentes moles ou a faltar
Na fase final, muitos cães acabam por perder dentes. Às vezes o tutor encontra um dente no pote ou no chão; outras vezes, ele cai sem que ninguém note. A ideia de que um cão idoso “simplesmente perde dentes” é um mito. Quase sempre, a queda está ligada a uma doença avançada do aparelho que sustenta os dentes.
Ao notar qualquer um desses sinais, o ideal não é adiar a consulta para “um dia”, e sim agir o quanto antes.
O que o veterinário pode fazer - e por que soluções caseiras não resolvem
Depois que a periodontite se instala, ossos para roer, snacks “dentais” ou pós misturados na comida já não dão conta. Podem até reduzir um pouco da placa superficial, mas não removem o tártaro duro nem alcançam as áreas profundas de inflamação.
Limpeza dentária profissional sob anestesia
Nos quadros mais sérios, a alternativa efectiva é um protocolo de limpeza dentária profissional no veterinário. Utilizam-se instrumentos específicos para retirar o tártaro - inclusive abaixo da margem da gengiva, onde ficam as bactérias mais agressivas.
Em cães, esse procedimento é feito, por regra, com anestesia geral. Só assim o veterinário consegue trabalhar com segurança e minúcia, sem causar stress, susto ou ferimentos no animal. Em muitas clínicas, o pacote inclui:
- avaliação prévia e exame de sangue (conforme idade e condição)
- anestesia e monitorização
- remoção do tártaro e polimento das superfícies dos dentes
- verificação de todos os dentes e, se necessário, radiografias
- extração de dentes muito comprometidos
Os custos - conforme região, complexidade e quantidade de dentes afectados - costumam ficar entre cerca de € 150 e € 300 ou mais. É um valor alto, mas, quando se compara com o alívio do sofrimento do cão e com os gastos que inflamações não tratadas podem gerar, geralmente é a escolha mais sensata.
Como evitar que chegue a esse ponto
Após a limpeza profissional, a boca fica, por um tempo, “em ordem”. Se a rotina de cuidados não for mantida, o problema tende a voltar. O que faz diferença é o dia a dia depois.
Higiene dentária em casa, diária ou pelo menos frequente
Os cães beneficiam muito de higiene dentária de verdade - e não apenas de petiscos com a palavra “dental” na embalagem. Entre as opções mais úteis, estão:
- escovação com pasta específica para cães e escova macia
- itens de mastigação adequados, que ajudem a remover mecanicamente a placa
- alimentação que não deixe resíduos pegajosos na boca o tempo todo
Começar cedo ajuda a evitar problemas graves. Ainda assim, mesmo em cães mais velhos, vale iniciar - mesmo que eles precisem de tempo para aprender a aceitar a escovação.
Check-ups regulares, em vez de esperar a dor aparecer
Pelo menos uma vez por ano, o veterinário deveria avaliar a boca com cuidado; em raças pequenas ou em cães com histórico de problemas dentários, pode ser necessário com maior frequência. Cães pequenos correm mais risco porque os dentes ficam mais juntos e o tártaro se forma mais depressa.
Também ajuda criar um hábito simples: uma vez por semana, levantar os lábios rapidamente, checar o cheiro e observar a cor da gengiva. Assim, muitos problemas são percebidos semanas antes.
Por que a periodontite destrói mais do que “só” os dentes
As consequências não ficam limitadas à cavidade oral. Bactérias de gengivas inflamadas podem entrar na corrente sanguínea e sobrecarregar o coração, os rins e outros órgãos. Alguns cães passam a parecer cansados, perdem peso ou desenvolvem outras doenças - sem que a ligação com a boca seja notada de imediato.
Levar a saúde oral a sério, portanto, protege não apenas os dentes, mas o organismo inteiro. Mastigar sem dor, comer normalmente e ter uma rotina tranquila são partes da qualidade de vida que muitos cães perdem em silêncio - e que, após o tratamento, muitas vezes recuperam de forma visível.
Da próxima vez que o seu cão esfregar a boca com força, vale olhar com atenção: por trás de um gesto aparentemente engraçado pode haver dor pura - e você pode ajudar a aliviar isso.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário