O que parece uma daquelas lendas exageradas do mundo das startups é, no caso de Tom Gozney, bastante concreto. O britânico não só reescreveu a própria trajetória - de queda a renascimento empresarial - como, segundo a empresa, seus fornos de pizza já levaram cerca de 400 pessoas a largarem empregos estáveis para ganhar a vida vendendo pizza.
Da reabilitação à oficina: como tudo começou com um forno “feio”
Hoje, Tom Gozney comanda uma marca internacional de fornos de pizza para uso ao ar livre, com presença na Europa, nos EUA, na Austrália e na China. Só que, há pouco mais de 15 anos, o cenário era outro: dependência de álcool e drogas, internação e a necessidade de começar do zero.
Depois do período de reabilitação, ele se aproximou do cozinhar no fogo vivo - primeiro como uma forma de ocupar a mente e se manter firme, e depois como uma verdadeira obsessão. No quintal, construiu o primeiro forno a lenha com as próprias mãos. Em retrospecto, ele define aquele protótipo visualmente como uma “absolute Zumutung”. Mas, na prática, foi esse forno que virou a chave.
De um forno construído na mão para amigos nasceu a base de uma marca com faturamento anual de dezenas de milhões.
A partir daí, Gozney mergulhou em livros e materiais técnicos: propriedades térmicas do cimento, comportamento da combustão, isolamento, formatos. Sem diploma de engenharia, mas com um nível quase obsessivo de atenção aos detalhes, ele foi se especializando no tema de construção de fornos.
5.000 libras emprestadas pela mãe - e o primeiro acerto de verdade
O primeiro forno pronto para o mercado saiu com ajuda de um empréstimo pessoal da mãe, de 5.000 libras. Metade do valor foi para uma forma de fibra de vidro; o restante, para materiais e testes. O resultado foi uma cúpula compacta, de peça única, moldada em concreto - uma espécie de “igluzinho de forno” que podia ser montado rapidamente e instalado por um custo bem menor do que o de fornos tradicionais de alvenaria.
O modelo de entrada, chamado “Primo”, era vendido por 499 libras e mirava, inicialmente, cozinheiros amadores. Ao mesmo tempo, Gozney patenteou o método de construção. No setor de restaurantes, a proposta ganhou tração: o visual que lembrava terracota combinava com pizzarias contemporâneas, e a instalação rápida economizava tempo e dinheiro.
- Montagem mais rápida do que em fornos de pedra tradicionais
- Custos de instalação mais baixos para restaurantes
- Qualidade replicável graças à forma de molde, em vez de construção peça a peça
- Foco em design: o forno como elemento visível, não como tecnologia escondida
Sob a marca “Stone Bake Oven Company”, Gozney logo passou a fornecer para redes conhecidas, como Franco Manca e Pizza Pilgrims. Em 2011, ele ainda ajustava sozinho o site da empresa e rodava feiras do setor agrícola - cinco anos depois, já era um nome estabelecido na cena de pizza do Reino Unido.
Da categoria de nicho à marca: Gozney vira produto de lifestyle
Com o tempo, ele unificou o negócio voltado à gastronomia e o canal direto ao consumidor final sob um só nome: Gozney. A transição de fornecedor técnico para marca de lifestyle foi intencional. O forno precisava não apenas entregar desempenho, mas também ficar bem em fotos no Instagram e virar assunto em encontros de churrasco.
Um argumento importante de venda: os equipamentos foram os primeiros no Reino Unido a atender às exigências para operar em zonas de controle de fumaça. Em cidades densas, como Londres, isso era uma vantagem real.
Em seguida veio o produto que acelerou tudo: um forno de pizza relativamente leve e portátil, batizado de “Roccbox”.
Roccbox: o forno “de mala” que vira a carreira de cabeça para baixo
Em 2016, a Gozney lançou o Roccbox - um forno móvel com base de pedra, capaz de chegar a temperaturas típicas de pizzarias profissionais, mas pequeno o suficiente para caber no carro ou numa varanda. No começo, o público-alvo eram entusiastas exigentes.
A resposta do mercado foi intensa: já no primeiro mês após o lançamento, o produto gerou cerca de 900.000 libras em faturamento. Os anos de pandemia, com lockdowns e restaurantes fechados, funcionaram como um reforço extra. Enquanto muitos setores encolhiam, crescia de forma acelerada a procura por equipamentos premium para cozinhar em casa.
De acordo com números divulgados pela empresa, a receita saltou de pouco mais de 5,2 milhões de libras em 2019 para cerca de 72 milhões de libras em 2024. E, em algum ponto entre garagem, varanda e food truck, aconteceu algo que Tom Gozney dificilmente teria previsto nessa escala.
Cerca de 400 compradores do forno de pizza portátil, segundo a Gozney, pediram demissão e hoje vivem da venda de pizza.
Quem são esses 400 que largaram tudo?
Internamente, Gozney descreve esse grupo como a “Gozney Collective” - uma comunidade de pessoas que passaram a trabalhar por conta própria usando os fornos da marca. Os perfis se repetem:
- Profissionais empregados que começam, em paralelo, em feiras e eventos
- Cozinheiros que optam por um food truck em vez de abrir um restaurante
- Pessoas vindas de escritórios que transformam o “hobby da pizza” em profissão
- Pequenos negócios familiares com serviços móveis de catering
A lógica é simples: um forno tradicional para cozinha profissional pode custar rapidamente valores de cinco dígitos, além de exigir uma instalação trabalhosa. Um equipamento potente, porém portátil, reduz bastante a barreira de entrada - especialmente para operações pop-up e vendedores de street food.
Na interpretação de Gozney, “os produtos funcionam em um contexto comercial”. Ou seja: quem monta uma operação com um forno desses pode - dependendo de técnica e localização - entregar, em poucos minutos, pizzas com padrão de restaurante. Isso diminui o medo de dar o passo rumo à autonomia.
Uma história de sucesso empresarial com pontos de ruptura
A narrativa parece pronta para as redes sociais: um ex-dependente cria um forno com design marcante, centenas de fãs largam o emprego para se “libertar” graças ao produto. Só que a vida real de empreender com pizza não é tão linear.
Quem se inspira nessa história precisa encarar alguns aspectos com frieza:
- Pressão competitiva: street food e bancas móveis de pizza estão em alta - com concorrência junto.
- Regulamentação: exigências de higiene, registro, seguros e licenças são obrigatórios.
- Escolha do ponto: o faturamento depende de eventos, fluxo de pessoas ou estrutura de delivery.
- Rotina de trabalho: fins de semana, noites, risco climático - a “romantização” encontra o trabalho pesado.
O forno ajuda a reduzir o investimento inicial, mas não substitui visão de negócio nem persistência. Quem sai do emprego fixo entra em um setor com margens apertadas e contas que podem ser implacáveis: massa, equipe, aluguel, taxas - e, ainda assim, o preço precisa continuar competitivo.
Por que a pizza atrai tanta gente
Mesmo com os riscos, a pizza exerce um apelo especial como modelo de negócio. Os motivos são claros:
- Ingredientes-base baratos e alta geração de valor por unidade
- Público amplo, atravessando idades e faixas de renda
- Forte elemento de espetáculo com forno a lenha e preparo ao vivo
- Grande potencial para redes sociais (foodporn, chamas, abrir massa)
É exatamente nesse ponto que a Gozney se posiciona: o forno não é apenas ferramenta, mas palco. Para muitos dos 400 que mudaram de vida, hobby, autoimagem e negócio viram um pacote único. E quem se enxerga como “pioneiro de um movimento da pizza”, como Gozney chama sua comunidade, pode aceitar mais facilmente que o cotidiano seja bem mais duro do que o feed.
O que dá para aprender com a história da Gozney
Para fundadoras e fundadores - ou para quem sonha em sair do emprego - essa trajetória oferece várias pistas:
- Foco extremo em qualidade de produto: desempenho técnico somado a design pode transformar um item comum - aqui, um forno de pizza - em marca.
- Comunidade, não apenas clientes: quando compradores viram movimento, aumentam a lealdade e a divulgação orgânica.
- Terapia como motor: para Gozney, construir e cozinhar não era só trabalho - foi um caminho de estabilização após a dependência. Muitos fãs sentem essa camada emocional.
- Facilitar uma barreira de entrada baixa: um produto que permite que outras pessoas iniciem um negócio amplia o impacto muito além da venda em si.
Ao mesmo tempo, o caso mostra como narrativas pessoais pesam no branding atual. A história do ex-dependente “salvo” por fogo e massa é valiosa para marketing - e aumenta a atração sobre quem também busca uma saída do próprio trabalho.
Quão viável é o sonho de viver de pizza?
Quem está realmente considerando pedir demissão para vender pizza precisa fazer contas e testar em pequena escala:
- Teste primeiro: como atividade paralela em feiras, com amigos, em eventos corporativos.
- Calcule a demanda: quantas pizzas por dia são necessárias para sustentar a operação?
- Organize custos: insumos, taxas de ponto, deslocamento, eletricidade ou gás, reserva financeira.
- Tenha um plano B: o que fazer se clima ou procura ficarem ruins por semanas?
A trajetória de Gozney mostra que um único produto pode mudar biografias - a dele e, ao que tudo indica, a de centenas de clientes. Se o forno de pizza vai virar virada de vida, renda extra ou um hobby caro depende menos do equipamento no quintal e mais de planejamento, esforço e um bom nível de realismo.
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