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Padre Louis Salman sai da Terra Santa após Israel negar renovação do visto

Homem vestido de religioso com mala, colete de imprensa e câmera, em portal com vista para Jerusalém.

O padre católico de Beit Sahour, nas proximidades de Ramallah, na Palestina, acabou obrigado a deixar a Terra Santa depois que as autoridades israelenses recusaram a renovação do seu visto. Além de pároco, Louis Salman acumulava a responsabilidade pela pastoral juvenil voltada aos católicos de língua árabe que vivem na Cisjordânia.

O Expresso confirmou a informação com fontes da Igreja Católica na Terra Santa. Segundo essas fontes, o Patriarcado ainda evita declarações públicas porque pretende contestar a decisão na Justiça.

O sacerdote já saiu do território e voltou para a Jordânia, seu país de origem. “Saiu a pedido do patriarca, e pela sua segurança”, relatou ao Expresso uma pessoa próxima de Salman.

A recusa em renovar o visto ocorre num momento de agravamento das relações entre o Estado judeu e o mundo católico, dentro e fora do país, após uma sequência de episódios. Em 28 de abril, por exemplo, uma freira católica francesa foi brutalmente atacada por um israelense radical na Cidade Velha de Jerusalém. O suspeito empurrou a religiosa por trás, fazendo com que ela batesse a cabeça na calçada, e depois a chutou repetidas vezes. Um israelense judeu de 36 anos foi identificado e detido pela polícia, e as autoridades condenaram o ataque.

Não foi caso único

A violência do episódio abalou a comunidade cristã local, mas outros gestos hostis já se tornaram frequentes na Cidade Velha. Integrantes de grupos judeus radicais cospem em religiosos cristãos ou nos átrios de igrejas, sem que haja intervenção das autoridades.

A pressão relatada pelos cristãos também aparece na esfera tributária. Por entendimentos históricos herdados do Império Otomano, igrejas tradicionalmente deixam de pagar certos impostos sobre patrimônios. Israel e a Santa Sé iniciaram nos anos 90 conversas sobre o status fiscal da Igreja Católica, mas as negociações nunca foram concluídas.

Em intervalos regulares, a prefeitura de Jerusalém envia cobranças às igrejas, exigindo impostos atrasados que, se efetivamente pagos, facilmente levariam as instituições à falência. No passado, ações desse tipo costumavam ser revertidas por vias políticas. O alvo mais recente foi a Igreja Apostólica Armênia, a menor e a mais desprotegida entre as principais confissões cristãs da Cidade Santa. Católicos e ortodoxos manifestaram solidariedade, e o caso está na Justiça.

Cultura de impunidade

A fricção entre a Igreja Católica e o Estado de Israel atingiu um ponto máximo no Domingo de Ramos, quando a polícia barrou a entrada do patriarca latino de Jerusalém, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, no Santo Sepulcro para celebrar a missa. A justificativa apresentada foi o protocolo de segurança vigente por causa dos ataques do Irã, mas a medida gerou fortes protestos internacionais. Diante da reação, Israel recuou e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu interveio para exigir que, no futuro, a polícia permitisse ao patriarca acessar o simbólico local de culto.

Naquele momento, Israel já estava sob escrutínio internacional após ter matado, num bombardeio no sul do Líbano, um padre católico da Igreja Maronita e o irmão de outro sacerdote da mesma Igreja. Depois disso, surgiram gravações de soldados israelenses no país profanando imagens cristãs: um golpeando um crucifixo com um martelo e outro colocando um cigarro na boca de uma imagem da Virgem Maria.

Nos dois episódios, as Forças Armadas de Israel afirmaram que esses atos não refletiam os valores da instituição. O soldado envolvido no caso do crucifixo e o militar que fez a filmagem foram condenados a 30 dias de prisão militar e retirados de suas unidades. Já os dois envolvidos na foto do cigarro receberam penas de 28 e 14 dias de prisão.

Cristãos veem com bons olhos a responsabilização desses militares, mas ela ainda é incomum. Em outros episódios graves de violência militar contra pessoas ou locais cristãos, a impunidade tem sido a regra.

Jornalista assassinada

A jornalista palestina cristã Shireen Abu Akleh foi morta com um tiro na cabeça em 2022, enquanto cobria uma operação militar em Jenin, na Cisjordânia, apesar de estar claramente identificada como imprensa. Investigações independentes concluíram que o projétil partiu das Forças Armadas israelenses, mas elas se recusaram a abrir investigação. Ninguém foi responsabilizado.

O mesmo padrão de impunidade se repete diante do assédio de colonos israelenses na Cisjordânia contra aldeias palestinas. Em Taybeh, a última aldeia totalmente cristã na Palestina, a hostilidade é cotidiana. Colonos incendeiam carros, conduzem o gado para pastar em terras dos moradores e destroem oliveiras. Vídeos gravados por ativistas no local, para registrar os abusos, indicam que, nas poucas ocasiões em que militares aparecem, limitam-se a cumprimentar os colonos e a deixá-los ali. Até hoje, ninguém foi detido ou levado a julgamento por essas ações.

A situação piorou com o Governo de Netanyahu: na pasta da Segurança está um nacionalista radical

Em julho de 2025, o cenário em Taybeh levou o patriarca latino de Jerusalém e o patriarca ortodoxo a realizarem uma visita conjunta à localidade, para chamar a atenção do mundo. A iniciativa teve repercussão na mídia. Três dias depois, a Igreja da Sagrada Família em Gaza, que abrigava centenas de cristãos, foi atingida por um morteiro que matou três pessoas e feriu o pároco argentino Gabriel Romanelli. Ninguém foi responsabilizado, e a investigação militar concluiu que se tratou de um erro técnico; ainda assim, fontes próximas ao Patriarcado disseram que o entendimento predominante na comunidade era o de que o ataque teria sido uma retaliação pela posição de Pizzaballa em Taybeh.

Antes disso, em dezembro de 2023, também não houve responsabilização quando duas mulheres católicas dentro do perímetro da mesma igreja em Gaza foram mortas por um atirador de elite. Nahida Khalil Anton foi atingida primeiro; sua filha, Samar, morreu ao tentar socorrê-la.

“Israel queria que ele ficasse calado”

A imprensa local chegou a afirmar que o padre Louis Salman teria sido expulso da Terra Santa por causa do teor de suas críticas a Israel na ocasião da morte de Shireen Abu Akleh. Coincidentemente, a expulsão ocorreu exatamente quatro anos depois da morte da jornalista, em 11 de maio de 2022.

Uma fonte na Terra Santa, que pediu anonimato, disse ao Expresso que essa não foi a razão central. “O cerne da questão é a sua tomada de posição contra as ações diárias dos colonos e as várias medidas adotadas pelas autoridades israelitas no terreno, que têm impacto direto na presença dos cristãos na Terra Santa, colocando-os sob enorme pressão socioeconómica. Esta pressão constante está a esticar até ao limite absoluto os recursos da Igreja.” Conclui a mesma fonte: “Esta realidade está à vista de todos os que observam, e forma o verdadeiro contexto da situação atual, mas as autoridades queriam que ele ficasse calado e agisse como se nada fosse.”

As reclamações de cristãos árabes sobre a atuação israelense são antigas e, em muitos pontos, repetem as queixas do restante da população palestina. Há consenso, porém, de que o cenário mudou sob o atual governo Netanyahu.

O alemão Nikodemus Schnabel é abade beneditino do Mosteiro da Dormição, em Jerusalém. A ordem mantém outra residência em Tabgha, que em 2015 foi atacada por extremistas judeus, que incendiaram parte do edifício. Em entrevista à AsiaNews, ele afirmou: “O advogado que então defendeu os incendiários chamava-se Itamar Ben-Gvir. Esse homem, que odeia veementemente cristãos e o cristianismo, é agora ministro da Segurança Nacional em Israel. Ou seja, é o responsável pela minha segurança. Isso é sinistro.”

Enviado especial de Netanyahu

Para os cristãos, a presença de nomes da extrema direita judaica no governo israelense mudou o paradigma. Ben-Gvir, por exemplo, é apontado como responsável por armar dezenas de milhares de civis israelenses, incluindo muitos dos colonos que vêm sitiando Taybeh. Em abril, diante da indignação internacional provocada pelo episódio do Domingo de Ramos, Netanyahu decidiu nomear um enviado especial ao Mundo Cristão.

George Deek integra a comunidade árabe que vive em Israel com plena cidadania israelense - grupo que inclui um número expressivo de cristãos. Embora também entre eles existam denúncias de discriminação, sobretudo desde os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023, árabes israelenses têm estabilidade e qualidade de vida incomparáveis às de seus correligionários na Cisjordânia e em Gaza; muitos se identificam com Israel e alguns até servem nas forças armadas.

Ortodo xo, Deek é um diplomata experiente. Foi o primeiro embaixador cristão de Israel e serviu no Azerbaijão, país com o qual Israel mantém relações comerciais e estratégicas fortes. Ele tem insistido que o futuro dos cristãos no Oriente Médio está diretamente ligado ao destino de Israel, argumentando que uma região que não tolera a existência de um Estado para os judeus também não aceitará outras minorias.

Ao comentar os atos de profanação no sul do Líbano, ele declarou que “o desrespeito por símbolos cristãos e figuras religiosas é uma ofensa não só para os cristãos, mas também para os princípios da dignidade e do respeito mútuo que Israel defende”. E completou: “O que interessa é a reação de uma nação. Em ambos os casos, Israel condenou claramente o sucedido e tomou medidas”.

Defensores desse ponto de vista destacam a estabilidade da comunidade cristã em Israel e dizem que o país é o único no Oriente Médio onde o número de cristãos cresce. Críticos respondem que, sem ignorar a ameaça do fundamentalismo islâmico e a corrupção endêmica na Palestina, a postura de Israel nos territórios palestinos também ajuda a explicar por que a participação cristã ali, que já superou 20%, hoje não chega a 2%.

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