Quando contou ao seu diretor espiritual que era bissexual, Pedro ouviu de um padre que só havia dois caminhos: continuar no sacerdócio ou buscar uma psicóloga. Mesmo em um país em que as terapias de conversão viraram crime, ainda existe quem queira “curar” a homossexualidade.
Trinta e seis anos depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter retirado a homossexualidade da lista de doenças, a Lusa encontrou relatos como os de Pedro e Miguel, que foram incentivados a “tratar” a própria orientação sexual.
Pressão religiosa e social para “curar” a bissexualidade
No dia em que Pedro Lopes (nome fictício) decidiu abrir o jogo com o seu guia espiritual e dizer que era bissexual, ele se espantou com as recomendações do pároco. O padre franciscano argumentou que, se quisesse manter essa orientação sexual, deveria "seguir o sacerdócio". A outra opção, segundo Pedro, seria tentar ser heterossexual com a ajuda de "uma psicóloga católica".
Pedro descreveu a experiência como ter se sentido “castrado”. Ele rejeitou a proposta e se afastou da igreja. E não foi a única vez, em pouco tempo, em que as “terapias de conversão” apareceram como algo aceitável. Em 2022, durante uma festa de aniversário, ao mencionar a bissexualidade, ouviu de alguns amigos que “existia solução” para situações como a dele.
Ele nunca concordou com esse tipo de prática, mas passou a ter a convicção de que há pessoas que de fato se submetem a isso. Na Ordem dos Psicólogos, não constam queixas nem denúncias. “A grande maioria das pessoas que possa fazer essas práticas não é psicólogo, psiquiatra, nem profissional de saúde mental, porque sabem que não vale a pena fazer uma intervenção que não vai ter resultados e que, pelo contrário, vai aumentar a sensação de estigma”, explicou Miguel Ricou, da Ordem dos Psicólogos.
Sem registo de casos
O especialista citou estimativas internacionais segundo as quais cerca de 5% das pessoas LGBTI+ seriam expostas a essas práticas, mas indicou que o primeiro estudo feito em Portugal aponta para uma prevalência bem mais alta. No relatório “Saúde Mental, Experiências de Terapia e Aspirações de Vida de Pessoas LGBT+”, coordenado por Pedro Alexandre Costa e divulgado em 2023, 22% dos entrevistados afirmaram ter sido submetidos a práticas de conversão em contextos religioso, médico ou psicoterapêutico. Embora essas práticas tenham se tornado crime desde 2024, as autoridades não têm “registo de processos” encerrados em tribunal naquele ano, informou à Lusa o Ministério da Justiça.
Nem a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) nem a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) receberam reclamações.
A Casa Qui foi a única a registrar um pedido de apoio, no fim de 2024, de alguém que disse ter passado por “missas de conversão”, relatou à Lusa Rita Paulos, presidente da associação que apoia a população LGBTI+ em situação de risco.
Também não aparecem casos recentes no Observatório da Discriminação da ILGA, na Rede ex Aequo, na Opus Diversidade ou na APAV. Ainda assim, a psicóloga da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, Joana Menezes, ressaltou que a ausência de queixas não significa a inexistência de práticas.
Rita Paulos concordou e reconheceu que isso continue acontecendo, “principalmente em contexto religioso (...) mesmo que não seja explicitamente como "terapia de conversão"”.
Rejeição familiar e consequências para jovens LGBTI+
Joana Menezes chamou atenção para episódios de violência doméstica ou intrafamiliar motivados pela rejeição da orientação sexual ou da identidade de gênero, além de histórias de adolescentes que acabam expulsos de casa - ou fogem.
Miguel Salazar está entre esses casos. Aos 16 anos, ele aceitou fazer terapias de conversão “com um psicólogo cristão” para tentar trazer tranquilidade ao ambiente dentro de casa. Quando resolveu interromper a terapia, os pais tornaram a sua "vida um inferno, até decidir sair de casa", contou - hoje com 26 anos. À Lusa, a mãe negou todas as acusações.
Pedro Lopes também disse conhecer amigos homossexuais que foram colocados à margem pela família: “Não são convidados para as festas de Natal nem da Páscoa e, se tiverem uma relação, não podem levar essa pessoa a casa”.
Agravar o trauma
Em uma igreja não muito distante daquela que Pedro frequentava, outro pároco sempre encarou de modo diferente as supostas “terapias”. O padre, que pediu anonimato, ouviu relatos de pessoas que aceitaram se submeter a práticas de “quase tortura psicológica” para deixar de ser homossexual.
Segundo ele, dois homens - já em pleno século XXI - tentaram “a conversão para a heterossexualidade”, mas as técnicas “não deram resultado, graças a Deus”, relembrou.
Sessões, controle diário e sistema de pontos
Um dos fiéis relatou que participava de encontros em grupo e também de atendimentos individuais, em um processo de transformação que seguia além das consultas.
Em uma espécie de caderneta, registava o que ia sentindo ao longo do dia e ia ganhando ou perdendo pontos. “Quando iam na rua, por exemplo, apontavam se tinham sentido ou não atração por uma figura masculina”.
O pároco destacou que os dois casos ocorreram fora do ambiente da igreja: eram acompanhados por “psicólogos ou pseudo-psicólogos, que tinham uma componente religiosa, mas não eram em reuniões de igreja”.
No fim, as práticas de conversão não trouxeram qualquer efeito - apenas ampliaram o trauma. Convidados a dar depoimento, mesmo sob anonimato, disseram não se sentir prontos, porque “falar no assunto pode levar a uma retraumatização”, explicou o padre.
Outras duas vítimas chegaram a aceitar entrevistas, mas desistiram pouco antes. Contaram que ainda não conseguiam tocar no tema e preferiam manter o silêncio.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário