Um movimento internacional vem preocupando, ao mesmo tempo, pesquisadores da educação e neurocientistas. Avaliações que medem memória, raciocínio lógico e capacidade de concentração indicam que, há pouco mais de uma década, não há mais ganhos - e, em muitos países, há uma queda nítida. Quem aparece como mais afetado: os jovens de hoje entre 15 e 25 anos, isto é, a Geração Z.
Um século de avanço intelectual - até a virada
Por mais de 100 anos, um padrão parecia quase inabalável: cada geração tendia a ir melhor em testes de inteligência do que a anterior. Esse fenômeno ficou conhecido como efeito Flynn. Em média, somavam-se cerca de 3 pontos de QI por década - e isso aparecia em praticamente todas as áreas avaliadas.
A explicação não era um “milagre genético”, e sim a combinação de transformações sociais como:
- escolarização mais longa e mais abrangente
- melhora da alimentação, sobretudo na primeira infância
- rotinas de trabalho e ambientes cotidianos cada vez mais complexos
- mais estímulos cognitivos, por exemplo por meio de mídia, jogos e quebra-cabeças
Países ocidentais registraram essa evolução com bastante precisão. Durante décadas, a curva dos resultados subiu quase em linha reta. Houve oscilações, mas nenhum ponto de inflexão real - até o começo dos anos 2010.
“Pela primeira vez desde o fim do século XIX, uma geração fica claramente abaixo do nível dos próprios pais em habilidades cognitivas centrais.”
James Flynn, psicólogo neozelandês que deu nome ao efeito, já havia defendido que fatores ambientais explicavam todo o avanço observado. A hereditariedade, para a tendência de longo prazo, praticamente não teria peso. Seguindo essa lógica, se o ambiente piora ou muda de forma intensa, o QI também deveria refletir isso - e é exatamente esse o cenário que agora parece estar se desenhando.
Desde 2010, as curvas começam a cair
O neurocientista norte-americano Jared Cooney Horvath apresentou ao Senado dos Estados Unidos dados que apontam um padrão semelhante em vários países: por volta de 2010, os resultados primeiro deixam de crescer e, depois, passam a cair de leve. As áreas com maior impacto são:
- memória de trabalho - a capacidade de guardar informações por pouco tempo e manipulá-las
- raciocínio lógico abstrato
- atenção e tempo de concentração
Ao mesmo tempo, avaliações internacionais de desempenho escolar reforçam a tendência. O PISA da OCDE de 2022 registrou, entre jovens de 15 anos, pontuações menores em matemática, ciências e leitura do que uma década antes. O movimento aparece tanto na Europa quanto na América do Norte.
A queda não se limita a regiões com dificuldades históricas: ela alcança também sistemas educacionais que antes eram considerados fortes. Até países vistos como referência vêm perdendo terreno. Um detalhe chama atenção: o ponto de inflexão coincide no tempo com a disseminação explosiva de smartphones, tablets e laptops na rotina de adolescentes.
O papel das telas: oito horas por dia conectados
Na leitura de Horvath, a presença constante de telas é uma das principais responsáveis. Ele cita estudos segundo os quais adolescentes da Geração Z passam, em média, cerca de oito horas por dia diante de dispositivos digitais - aproximadamente metade do tempo em que estão acordados.
“Nunca antes os jovens ficaram tão permanentemente online - e nunca antes uma nova geração apresentou resultados cognitivos piores do que a anterior.”
O neurocientista é especialmente crítico ao uso intenso de tecnologia dentro das escolas. Nos Estados Unidos, foram investidos bilhões em laptops e tablets, muitas vezes para substituir livros didáticos tradicionais. A promessa era de aulas mais modernas, maior motivação e melhor desempenho. As primeiras análises, porém, sugerem outro resultado.
- Dispositivos digitais facilitam distrações, como navegador, mensagens e jogos.
- A leitura na tela, comprovadamente, leva a uma compreensão mais superficial do que no papel.
- Anotações digitadas tendem a ser menos retidas do que registros feitos à mão.
Segundo Horvath, tablets e laptops acabam deslocando rotinas de estudo que já eram bem estabelecidas - sem oferecer alternativas igualmente testadas. Em vez de elaborar ideias, muitos alunos apenas “passam” pelo conteúdo. O material é consumido no ritmo do scroll, não consolidado.
A Escandinávia puxa o freio de mão na sala de aula
No norte da Europa, alguns governos já começaram a reagir. Em 2023, a Suécia anunciou que reduziria fortemente o uso de tablets no ensino fundamental. A proposta é recolocar no centro livros didáticos, cadernos e lápis.
O pano de fundo são quedas claras no desempenho educacional desde a adoção ampla de dispositivos digitais. Na Suécia, conselhos técnicos argumentam que ler e escrever no papel estabiliza melhor a memória de longo prazo do que digitar - ou apenas deixar que se digite - na tela.
Dinamarca e Noruega também mudaram de direção. Países que já foram vitrine de “escola digital” agora passam a impor limites de forma deliberada:
- tempo diário de tela durante as aulas
- uso de tablets nos primeiros anos
- oportunidades de distração por aplicativos sem relação com o conteúdo
A escrita manual volta a ganhar espaço, com cadernos e redações mais longas feitas com caneta e papel. Professores relatam que, em atividades analógicas, estudantes conseguem manter mais foco e reter o conteúdo por mais tempo.
Autoimagem vs. realidade: a Geração Z se superestima
Outro ponto da apresentação de Horvath gerou surpresa: em pesquisas, a juventude atual demonstra mais confiança na própria capacidade intelectual do que turmas de décadas anteriores. Ou seja, subjetivamente a Geração Z se percebe muito competente - enquanto, objetivamente, recua em diversos testes.
“Quem vive googlando tudo confunde acesso à informação com conhecimento de verdade.”
O acesso imediato a buscadores e enciclopédias online pode reforçar a ideia de que o conhecimento está sempre disponível. Na lógica: “Eu não preciso guardar isso na cabeça; eu consulto em segundos.” No curto prazo, pode funcionar; no longo prazo, cresce o risco de perder conhecimentos mais profundos e conectados.
Projetos de pesquisa na Northwestern University ainda indicam que a queda não afeta todas as habilidades do mesmo modo. As maiores fragilidades aparecem em:
- compreensão verbal - entender linguagem com precisão e situar significados
- raciocínio espacial - essencial, por exemplo, em tecnologia, arquitetura e ciências
A única habilidade que mostrou leve avanço foi o chamado pensamento baseado em matrizes, no qual a pessoa identifica padrões em representações simbólicas ou visuais. Pesquisadores suspeitam de uma relação com o uso constante de interfaces gráficas, videogames ou programas de edição de imagem.
O que significam termos como “memória de trabalho” e “pensamento abstrato”
Muitos estudos recorrem a termos técnicos pouco usados fora do meio acadêmico. Alguns deles são essenciais para entender o debate atual:
| Termo | Significado no dia a dia |
|---|---|
| Memória de trabalho | um “armazenamento temporário” para, por exemplo, segurar um número de telefone enquanto você disca, ou manter etapas de um cálculo na mente |
| Pensamento abstrato | capacidade de perceber padrões e regras por trás de exemplos concretos, como em matemática, lógica ou questões de estratégia |
| Atenção | foco direcionado em uma tarefa, sem ser arrancado dela a cada notificação do celular |
| Competência verbal | compreender textos complexos, perceber nuances de formulação e argumentar de modo consistente |
Justamente essas capacidades tendem a sofrer quando o cotidiano é feito de interrupções contínuas. Cada mensagem, cada vídeo curto, cada troca de aba fragmenta o raciocínio. Se, mesmo ao ler um texto breve, a pessoa pega o smartphone repetidamente, o cérebro vai sendo treinado para a superficialidade.
O que pais, escolas e adolescentes podem fazer agora, na prática
A boa notícia é que, se as mudanças atuais têm origem principalmente em fatores ambientais, também é possível agir para reverter o quadro. Algumas medidas parecem simples, mas podem fazer diferença grande no dia a dia:
- Horários fixos offline: períodos sem celular ao estudar, nas refeições e antes de dormir.
- Leitura no papel: optar por livros ou textos mais longos em formato impresso, em vez de apenas “varrer” conteúdos na tela.
- Anotações à mão: escrever com caneta e caderno, em vez de só fotografar a lousa.
- Praticar trabalho profundo: manter 20 a 30 minutos de atenção sustentada em uma tarefa, sem fazer outra coisa ao mesmo tempo.
- Exigir do cérebro: cálculo mental, xadrez, jogos de tabuleiro, instrumentos musicais - tudo que envolve planejamento e memória.
Para as escolas, a discussão central é quanta tecnologia faz sentido. Ferramentas digitais podem ajudar muito quando usadas com propósito - como em simulações, visualizações ou trabalhos colaborativos. Mas quando tablets apenas substituem folhas e livros, sem ganho real, o risco é perder atenção e consolidar menos conhecimento.
No longo prazo, não se trata de um “voltar ao giz e ao quadro”, e sim de buscar equilíbrio: métodos analógicos onde favorecem a memória e a aprendizagem, e recursos digitais onde abrem novas possibilidades. O ponto decisivo continua sendo ensinar crianças e adolescentes a sustentar o foco e realmente compreender a informação - em vez de apenas tocá-la na tela e descartá-la com um gesto.
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