Nos últimos anos, a indústria de carne e laticínios passou a falar muito mais alto sobre ação climática. Um estudo recente, porém, indica que boa parte desse vocabulário ambiental funciona mais como construção de imagem do que como mudança concreta.
Segundo os autores, a maioria das alegações de sustentabilidade feitas por grandes empresas de produção animal é genérica, orientada para o futuro ou pouco sustentada. Assim, elas se aproximam mais de maquiagem verde do que de uma ação climática com credibilidade.
Pesquisadores da Universidade de Miami avaliaram relatórios públicos de sustentabilidade e websites de 33 das maiores empresas de carne e laticínios do mundo.
O objetivo foi verificar se as declarações ambientais descreviam planos claros e viáveis para reduzir impactos, ou se, na prática, serviam sobretudo como mensagens corporativas bem polidas.
A produção de carne impulsiona as emissões
De acordo com o estudo, o setor responde por 57 por cento das emissões totais associadas à produção global de alimentos e por, no mínimo, 16.5 por cento de todas as emissões de gases com efeito de estufa no planeta.
Isso significa que qualquer esforço global sério para reduzir emissões precisa enfrentar a produção animal. Também significa que, quando essas empresas falam em sustentabilidade, as promessas têm peso junto de consumidores, investidores e formuladores de políticas públicas.
Diante disso, os pesquisadores buscaram entender se as promessas ambientais dessas companhias correspondiam a ações relevantes ou se, principalmente, criavam uma sensação de avanço.
Para chegar a uma resposta, eles examinaram 1,233 alegações ambientais publicadas entre 2021 e 2024.
Alegações climáticas dominam a comunicação
Um dos padrões mais evidentes do estudo foi o quanto empresas de carne e laticínios passaram a apoiar a sua comunicação em termos ligados ao clima.
Entre as 1,233 alegações analisadas, 841 - ou 68 por cento - foram classificadas como relacionadas ao clima, por mencionarem emissões de gases com efeito de estufa de forma direta ou indireta.
Em outras palavras, a mudança do clima tornou-se a principal lente usada por essas empresas para apresentar os seus esforços de sustentabilidade.
Isso não surpreende muito: o clima é hoje o tema ambiental dominante no debate público, e as empresas sabem disso.
O estudo, contudo, indica que a presença desse tipo de linguagem não deve ser confundida automaticamente com uma estratégia climática consistente.
Promessas futuras levantam dúvidas
Uma parcela grande das alegações era composta por promessas voltadas para o futuro - e, por isso, difíceis de verificar no presente.
Os pesquisadores identificaram 467 alegações, ou 38 por cento, que eram projeções não verificáveis. Entre elas estavam compromissos como “alcançar neutralidade de carbono até 2030” ou “viabilizar a restauração de 600 bilhões de litros de água em regiões com stress hídrico até 2030”.
São frases que soam ousadas e impressionantes, mas muitas vezes não são fáceis de definir com precisão.
Com frequência, as empresas apontam metas distantes no tempo sem explicar claramente o que acontecerá, como pretendem executar o plano ou como terceiros poderiam avaliar se a promessa está a ser cumprida.
Pouca evidência para alegações de sustentabilidade
As empresas apresentaram algum tipo de evidência de apoio em apenas 356 das 1,233 alegações (29 por cento). Quando os autores procuraram sustentação mais robusta em evidências científicas académicas, esse total praticamente desapareceu.
Somente três alegações contavam com suporte em pesquisa científica. E apenas duas dessas eram relacionadas ao clima. Trata-se de um número especialmente baixo para um setor que passou a falar com tanta frequência sobre responsabilidade ambiental.
Isso sugere que muitas companhias estão a fazer declarações assertivas sem uma base sólida que as sustente.
Os pesquisadores também observaram que 17 das 33 empresas haviam assumido compromissos de emissões líquidas zero. Isso representa um aumento acentuado em relação a 2020, quando apenas four empresas faziam esse tipo de promessa.
Ainda assim, esses compromissos de emissões líquidas zero pareciam depender sobretudo de compensação de emissões, em vez de reduções diretas.
Em teoria, a compensação permite equilibrar emissões por meio de projetos externos. Já a descarbonização direta envolve cortar emissões dentro da própria operação.
O estudo indica que muitas empresas estão a apostar fortemente na primeira via, o que pode dar ao público a impressão de um progresso mais concreto do que realmente existe.
A maioria das alegações foi classificada como maquiagem verde
Em seguida, os autores aplicaram um referencial de maquiagem verde para avaliar o conjunto completo de alegações. Do total, 1,213 de 1,233 - ou 98 por cento - puderam ser enquadradas como maquiagem verde, uma tática de marketing enganosa que apresenta uma empresa, produto ou serviço como mais amigo do ambiente do que de facto é.
Isso não significa que todas as empresas tenham sido enganosas do mesmo modo. Algumas alegações eram vagas, outras não eram verificáveis e outras ainda soavam ambiciosas, mas tinham pouca evidência por trás.
Em conjunto, o retrato apresentado pelo estudo é o de um setor que fala a linguagem da sustentabilidade com muito mais confiança do que a demonstra na prática.
Os pesquisadores ressaltam que essa estratégia não é exclusiva de carne e laticínios, já que diversos setores recorrem a promessas suaves, metas futuras e alegações difíceis de confirmar. Ainda assim, a produção animal destaca-se porque a sua pegada climática é muito elevada.
“Maquiagem verde foi generalizada nos relatórios de sustentabilidade das maiores empresas de carne e laticínios do mundo, o que pode criar a ilusão de progresso climático”, disse a autora principal Maya Bach, estudante de pós-graduação na Universidade de Miami.
“Estamos preocupados que essas alegações possam enganar o público, influenciar consumidores e reduzir a pressão sobre os formuladores de políticas para adotarem ação climática.”
Repensar a linguagem climática
Empresas de carne e laticínios têm dado cada vez mais destaque à mudança do clima nas suas mensagens. Alimentos de origem animal tendem a gerar emissões mais altas e impactos ambientais maiores do que outras fontes de alimentos.
“Quando grande parte do que essas empresas dizem parece ser apenas promessas vazias que não são sustentadas por evidências ou investimentos, isso começa a parecer mais um exercício de relações públicas do que cuidado genuíno com o planeta”, afirmou a autora correspondente Jennifer Jacquet, da Universidade de Miami.
Um setor com uma pegada climática tão grande pode envolver-se em linguagem verde sem apresentar muita sustentação. Isso pode distorcer a perceção de progresso e fazer a inação soar como responsabilidade.
O estudo foi publicado na revista PLOS Climate.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário