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Novo estudo observacional associa maior consumo de carne a menor risco de demência em portadores de APOE4

Mulher decidindo entre prato de embutidos e prato de alimentos saudáveis na mesa da cozinha.

Um novo estudo observacional identificou uma relação ainda provisória entre consumir mais carne - de qualquer tipo - e apresentar menor risco de desenvolver demência.

O ponto central, porém, é que esse resultado só apareceu entre pessoas com uma variante específica do gene APOE4, fortemente associada ao risco de doença de Alzheimer.

Como o estudo foi conduzido

Para investigar essa possível ligação, investigadores do Karolinska Institutet e da Universidade de Estocolmo, na Suécia, acompanharam 2,157 pessoas com mais de 60 anos por até 15 anos. Ao longo do período, os autores compararam as dietas auto-relatadas pelos participantes com os seus resultados em testes cognitivos e com eventuais diagnósticos de demência.

Diversos trabalhos anteriores já alertaram para os impactos negativos dos alimentos ultraprocessados na saúde - e, neste conjunto de dados, também houve sinais nessa direção.

"Uma menor proporção de carne processada no consumo total de carne foi associada a um menor risco de demência independentemente do genótipo APOE", afirma a neurologista do Karolinska Institutet, Sara Garcia-Ptacek.

Os autores descrevem o APOE4 como a "forma humana ancestral" do gene APOE. Essa ideia ajudou a fundamentar a hipótese de que cérebros de pessoas que carregam uma ou duas cópias da variante poderiam reagir de modo distinto a uma alimentação com maior presença de carne.

Ainda assim, é importante ressalvar que a própria noção de que os nossos antepassados consumiam mais carne tem sido questionada recentemente.

Além disso, décadas de pesquisa - sobretudo sobre carne vermelha processada - associaram maior ingestão de carne a risco mais alto de demência, o que reforça a necessidade de cautela e de mais estudos antes de aceitar a hipótese como consolidada.

Carne e demência em portadores de APOE4

Este trabalho acrescenta nuance ao debate e serve de lembrete de que as pessoas diferem tanto biologicamente quanto nas exposições ambientais.

"Este estudo testou a hipótese de que pessoas com [APOE4] teriam um risco reduzido de declínio cognitivo e demência com maior ingestão de carne", diz o gerontologista do Karolinska Institutet, Jakob Norgren.

De acordo com os dados observacionais, a hipótese foi sustentada: entre os participantes com APOE4, aqueles que consumiam mais carne tiveram probabilidade significativamente menor de desenvolver demência, e o declínio de memória ocorreu de forma mais lenta.

Nesta coorte, a carne processada correspondeu a cerca de um terço do consumo total de carne. Os resultados sugerem que, em alguns cenários, comer carne - inclusive carne vermelha - pode ser benéfico para o cérebro.

Embora ainda não esteja claro por que essa associação apareceu, o achado aponta que a relação entre alimentação e risco de demência pode não ser igual para todas as pessoas. Os investigadores levantam a possibilidade de que indivíduos com APOE4 absorvam determinados nutrientes da carne de maneira diferente.

Tipo de carne, proporções e o papel do gene APOE

Para quem não carregava APOE4, o consumo de carne no geral não se associou nem ao desempenho nos testes cognitivos nem à probabilidade de desenvolver demência.

Mesmo assim, o tipo de carne continuou a importar: uma razão mais alta de carne não processada em relação ao total - por exemplo, consumir mais carne vermelha ou aves - foi associada a menor risco de demência, independentemente do estado de APOE, quando comparada a uma maior ingestão de carne processada.

O gene APOE codifica a apolipoproteína E, uma proteína que ajuda a transportar colesterol e gorduras por todo o corpo, incluindo o cérebro - o que pode contribuir para explicar a ligação entre APOE4 e Alzheimer. Trata-se de outra associação que ainda exige mais investigação para ser plenamente compreendida.

Limitações do estudo e próximos passos

Este é um estudo observacional - isto é, os investigadores acompanharam o que as pessoas já comiam e como a cognição mudava ao longo do tempo, mas não atribuíram dietas de forma experimental.

Assim, os resultados mostram uma associação entre consumo de carne e risco de demência, mas não demonstram que comer mais carne previne demência.

Por ora, o trabalho sugere que pessoas com a variante genética APOE4 - cerca de um quarto da população mundial - podem conseguir reduzir o risco de demência por vias diferentes.

" Ensaios clínicos agora são necessários para desenvolver recomendações alimentares adaptadas ao genótipo APOE", diz Norgren.

A pesquisa foi publicada na JAMA Network Aberta.

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