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Como o acordo UE–Mercosul pode mudar a comida na Europa e no Brasil

Mesa com vinho branco, queijo, uvas, pão, azeite, arroz, mel, carne fatiada e sal sobre fundo com mapa europeu.

Um tratado discutido há décadas está prestes a alterar, sem muito alarde, o que vai parar no prato de milhões de europeus - e também a geografia de onde esses alimentos saem.

Depois de anos travado por disputas políticas e pressão de diferentes sectores, o acordo de livre-comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul voltou a avançar. Para além da retórica diplomática, o texto atinge em cheio cadeias de produtos como carne, vinho, laticínios, açúcar e outras categorias que abastecem supermercados tanto europeus como sul-americanos.

O que está em jogo no acordo UE–Mercosul

As conversas entre a UE e o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia) já somam cerca de 25 anos. Somados, os dois blocos reúnem aproximadamente 780 milhões de consumidores e têm peso relevante no PIB mundial. Por isso, não se trata de um entendimento marginal: é um dos maiores pacotes comerciais já articulados por Bruxelas.

Em janeiro, a maioria dos países europeus apoiou o tratado, apesar da resistência de França, Áustria, Irlanda, Polônia e Hungria. A formalização deve ocorrer com a assinatura da presidência da Comissão Europeia e de representantes do Mercosul, num encontro previsto no Paraguai.

Mais de 90% das tarifas de importação entre UE e Mercosul devem ser reduzidas ou eliminadas de forma gradual, abrindo espaço para um fluxo bem maior de alimentos.

Embora a redução de tarifas alcance vários ramos industriais, é na agricultura que a mudança tende a chegar mais perto do quotidiano - tanto no preço final como na origem do que se compra.

Por que agricultores protestam contra o tratado

Em território francês, sindicatos rurais têm ocupado estradas e feiras do sector para criticar o acordo. Sondagens indicam que cerca de 70% dos franceses dizem ser contra o pacote comercial. O receio central é a competição considerada desigual com produtos agropecuários sul-americanos, percebidos como mais baratos devido a custos trabalhistas inferiores e a regras ambientais diferentes.

Para uma fatia do agro europeu, o acordo pode significar pressão sobre a renda no campo e ainda mais concentração em grandes grupos voltados à exportação. Quem defende o tratado, por outro lado, argumenta que um mercado maior pode integrar melhor as cadeias de valor e abrir oportunidades também para produtores europeus - sobretudo em vinho, laticínios e alimentos processados.

Quais alimentos europeus ganham espaço no Mercosul

A abertura tarifária não se limita aos produtos tropicais que chegam à Europa. Do lado europeu, diversos itens devem entrar com mais facilidade nos países sul-americanos. Entre os exemplos mais citados estão:

  • Vinhos e espumantes feitos em França, Itália, Espanha e Portugal
  • Azeites de oliva, especialmente de Espanha e Itália
  • Lácteos como queijos, manteiga e leite em pó
  • Chocolate e produtos de confeitaria europeus

Para esses segmentos, a leitura é de que podem surgir novos mercados e aumento do volume exportado, já que as tarifas de entrada no Mercosul tendem a diminuir progressivamente.

A proteção de produtos com selo de origem

Outro tópico relevante envolve a proteção de nomes ligados a selos de qualidade e origem, como AOP (equivalente a uma denominação de origem protegida) e IGP (indicação geográfica protegida). Pelo tratado, essas designações passam a ser reconhecidas e resguardadas no Mercosul.

Queijos, vinhos, carnes e outros produtos tradicionais europeus passam a ter seus nomes oficialmente protegidos em parte da América do Sul, evitando imitações com a mesma denominação.

A relação de itens abrangidos inclui, entre outros:

Categoria Exemplos protegidos
Queijos Comté, Gruyère, Roquefort
Vinhos e bebidas Champagne, Chablis, rum da Guadelupa
Produtos do mar Ostras de Marennes-Oléron
Frutas e grãos Pruneaux d’Agen (ameixas secas), arroz da Camarga
Carnes e embutidos Boeuf de Charolles, presunto de Bayonne

Na prática, esse tipo de proteção busca impedir, por exemplo, que um produtor fora da Europa comercialize um espumante chamado “Champagne” ou um queijo “Roquefort” sem cumprir as regras de origem associadas a essas regiões.

Carne, açúcar, arroz e mel: os produtos do Mercosul que ganham cota

Do ponto de vista sul-americano, o trecho mais controverso do acordo é o que autoriza volumes adicionais de exportação agrícola para a UE. O texto estabelece cotas anuais para determinados produtos, normalmente com tarifa reduzida ou até zerada até um limite predefinido.

Os números mais mencionados são:

  • 99 mil toneladas de carne bovina por ano
  • 180 mil toneladas de carne de aves
  • 180 mil toneladas de açúcar
  • 60 mil toneladas de arroz
  • 45 mil toneladas de mel

Essas cotas funcionam como um “corredor preferencial” para parte da produção de países do Mercosul, que entra na UE com custos menores em relação a outros competidores externos.

No caso de bovinos e aves, o embate é frontal com produtores europeus, sobretudo em França, na Irlanda e em países do Leste Europeu. Já para açúcar, arroz e mel, a tendência é de impacto mais concentrado em segmentos específicos e em indústrias que dependem dessas matérias-primas - como bebidas, confeitaria e alimentos prontos.

Viticultura, azeite e leite: ganhos e incertezas

No lado europeu, três cadeias aparecem com frequência como potenciais ganhadoras: vinho, azeite de oliva e derivados do leite. Com tarifas menores, produtores de Espanha, Itália, Portugal e França podem tornar-se mais competitivos em centros urbanos do Mercosul, onde cresce o consumo de itens associados ao “estilo europeu” à medida que a classe média se expande.

Em contrapartida, sindicatos rurais sustentam que parte do benefício pode ficar nas mãos de grandes exportadoras, enquanto pequenas propriedades continuam pressionadas por exigências ambientais e trabalhistas mais elevadas do que as de concorrentes fora da UE.

O impacto possível para o consumidor brasileiro

Apesar de o debate público estar mais quente na Europa, o Brasil também pode sentir efeitos concretos. Dependendo de como o acordo for executado, os supermercados brasileiros podem passar a exibir mais rótulos europeus, sobretudo em categorias como vinho, queijos e chocolates.

Isso pode resultar em:

  • Maior diversidade de importados, especialmente de marcas médias que hoje aparecem pouco
  • Mais concorrência sobre vinhos, queijos finos e azeites produzidos na América do Sul
  • Eventual queda de preços em algumas categorias, caso a redução tarifária chegue ao consumidor

Ao mesmo tempo, a indústria brasileira de carne, açúcar e grãos surge como uma das principais candidatas a ocupar as cotas de exportação para a UE, reforçando o papel do país como fornecedor de commodities agrícolas.

Termos que ajudam a entender o debate

Alguns conceitos são recorrentes nas discussões sobre o acordo e ajudam a medir o alcance das mudanças propostas.

O que é exatamente uma cota de importação

Cota é um teto de volume que pode entrar num mercado com regras especiais - como tarifa zero ou reduzida. No exemplo da carne bovina, até 99 mil toneladas por ano teriam esse acesso favorecido. Acima desse patamar, a exportação pode continuar, mas volta a incorrer em tarifas mais altas.

Na prática, quem preenche essas cotas primeiro conquista uma vantagem competitiva relevante em relação a outros exportadores.

Como funciona a proteção de indicação geográfica

Indicações geográficas são selos atribuídos a produtos cuja identidade depende fortemente do território - seja por clima, solo ou métodos tradicionais. Quando um acordo comercial reconhece esses selos, os parceiros comprometem-se a respeitar o nome e a limitar o seu uso.

Isso é valioso para produtores europeus e, ao mesmo tempo, serve como referência para regiões brasileiras que querem valorizar cafés especiais, cachaças, queijos artesanais e frutas associadas a uma origem específica - que podem, mais adiante, procurar reconhecimentos semelhantes em negociações futuras.

Cenários possíveis para os próximos anos

Caso o acordo seja implementado integralmente, uma tendência provável é a especialização crescente por regiões: áreas do Mercosul reforçando produção de carne, grãos, açúcar e alguns processados; e áreas da UE consolidando a sua imagem em itens de maior valor agregado, como vinhos, queijos com denominação de origem e alimentos gourmet.

Outro caminho plausível é o endurecimento de exigências ambientais vinculadas ao cumprimento do tratado. Grupos europeus já defendem atrelar parte das vantagens tarifárias ao combate ao desmatamento e ao respeito a normas trabalhistas. Isso pode aumentar a pressão sobre governos sul-americanos para adotar rastreabilidade mais rígida em cadeias como carne e soja.

Para o consumidor brasileiro, o tema pode parecer distante, mas encosta em questões bem práticas: o que fica para abastecer o mercado interno, o que será canalizado para exportação e quais produtos estrangeiros passarão a disputar espaço nas gôndolas com os itens nacionais.


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