Quem respira acaba inalando esporos de fungos - todos os dias, aos milhões. Em geral, o sistema imunitário dá conta disso sem dificuldade. Mas um certo bolor do gênero Aspergillus está a tirar partido da mudança climática, do uso massivo de fungicidas e do aumento do número de pessoas com a saúde fragilizada para se tornar perigoso. Pesquisadores veem aí um risco crescente para a saúde e para a economia, que por muito tempo foi subestimado.
Um aliado que vira assassino
Os fungos são essenciais para a vida na Terra. Eles decompõem plantas mortas, reciclam nutrientes e mantêm os ciclos naturais a funcionar. O Aspergillus costuma fazer parte desse time de “limpeza”: é encontrado no solo, em grãos, em penas de animais e até em esqueletos de corais.
E é exatamente aí que mora o perigo: o mesmo organismo que desfaz folhas no chão da mata pode, nos pulmões humanos, provocar uma infeção com risco de vida - além de tornar colheitas inteiras inutilizáveis. A linha entre o útil e o destrutivo, neste caso, é extremamente fina.
De um fungo inofensivo de compostagem, no hospital ele vira um agente que pode decompor pacientes por dentro.
Três espécies estão especialmente no radar: Aspergillus flavus, A. fumigatus e A. niger. São altamente adaptáveis, produzem quantidades enormes de esporos e aparecem em quase todo lugar - o que dificulta muito o controlo.
Como a mudança climática acelera o bolor
Uma equipa liderada pelo micólogo Norman van Rhijn, da University of Manchester, calculou como essas espécies podem expandir a sua distribuição até o fim do século. Para isso, usou diferentes cenários climáticos, incluindo um cenário particularmente ruim, com emissões a continuar a subir e forte dependência de combustíveis fósseis.
Os modelos indicam que temperatura, humidade do ar e eventos extremos definem onde os esporos conseguem estabelecer-se de forma duradoura.
- Temperaturas mais altas abrem novos habitats para os fungos.
- Períodos mais longos de alta humidade favorecem o crescimento do bolor.
- Tempestades e episódios de poeira levantam esporos e espalham-nos por grandes distâncias.
Para a Europa, as projeções são preocupantes. Num cenário de altas emissões, poderia haver:
- aumento de cerca de 16 por cento na presença de A. flavus - com até 1 milhão de pessoas adicionais em situação de risco,
- expansão de aproximadamente 77,5 por cento no alcance de A. fumigatus - colocando até 9 milhões de pessoas a mais em risco.
Um detalhe relevante: em partes de África, o calor pode tornar-se tão intenso que alguns fungos passem a ter mais dificuldade para sobreviver ali. No panorama global, porém, isso não representa alívio - o risco apenas muda de lugar, com ganhos e perdas conforme a região.
Hospitais no limite da pressão
Em hospitais, Aspergillus já não é novidade. Após obras, reformas ou situações com muita poeira, surtos voltam a ocorrer. Os mais vulneráveis incluem:
- pacientes em UTI,
- pessoas com leucemia ou após transplante de órgãos,
- pacientes depois de infeções virais graves, como gripe ou COVID-19.
Nesses grupos, o fungo pode causar aspergilose invasiva. Os esporos chegam aos pulmões, germinam e passam a crescer como uma rede que atravessa tecidos e vasos sanguíneos. A ideia de “devorar por dentro” infelizmente descreve bem o que pode acontecer.
Em infeções por Aspergillus resistentes, mais de metade dos pacientes morre - mesmo com terapia.
Um obstáculo central é que o diagnóstico de doenças fúngicas ainda fica muito atrás do que existe para bactérias e vírus. Muitas vezes, perde-se tempo valioso até se confirmar que o agente é um fungo - e, nesse intervalo, os danos ao tecido podem tornar-se graves.
Quando agricultura e medicina entram em choque
Um dos pontos mais delicados é a ligação entre proteção de culturas e tratamento em humanos. Agricultores aplicam fungicidas chamados azóis nas lavouras para proteger trigo, milho ou amendoim do bolor. Médicos, por sua vez, usam compostos azólicos quase idênticos para tratar infeções pulmonares em pessoas.
Isso desencadeia uma cadeia de efeitos:
- No solo agrícola, sobrevivem sobretudo os fungos mais resistentes.
- Esses fungos carregam genes de resistência a azóis.
- Os esporos seguem pelo ar para cidades, casas e hospitais.
- Quando um desses fungos resistentes encontra um paciente imunodeprimido, os medicamentos padrão deixam de funcionar.
Cada hectare tratado com azóis aumenta, estatisticamente, a chance de esporos resistentes chegarem às unidades de saúde. Em partes da Europa e da Ásia, a resistência a azóis cresce há anos. As alternativas terapêuticas, em muitos casos, são mais tóxicas - podem afetar rins ou fígado - e custam bem mais caro.
Prejuízos de milhares de milhões por toxinas no grão
Aspergillus e outros bolores não afetam apenas pessoas: também pressionam a segurança alimentar. Algumas espécies produzem micotoxinas, isto é, toxinas de fungos que contaminam grãos, nozes e rações.
Num ano extremo, com forte ataque de Aspergillus, as perdas só na indústria de milho dos EUA podem passar de mais de 1 bilhão de dólares. Isso resulta de uma combinação de fatores:
- quebra de colheita por grãos embolorados,
- destruição ou desvalorização de estoques armazenados,
- custos adicionais com controlo e limpeza,
- limites legais que restringem a exportação.
Calor e alta humidade prolongam a “temporada do bolor” tanto no campo quanto em silos. Assim, produtores precisam aplicar mais produtos, descartar mais lotes ou tentar “diluir” partidas contaminadas. Em qualquer uma dessas respostas, há risco para a saúde e impacto económico.
Outros fungos problemáticos já estão à espreita
O Aspergillus não é o único capaz de mudar de papel. Especialistas também acompanham, por exemplo:
- Fusarium: ataca trigo e aveia e pode deixar substâncias tóxicas no grão;
- Cryptococcus: provoca meningites perigosas, sobretudo em pessoas com o sistema imunitário gravemente comprometido.
Com o aumento das temperaturas, as áreas de ocorrência também se deslocam. Regiões que quase não enfrentavam esse tipo de ameaça podem ter de lidar com novos agentes no futuro.
O quanto ainda sabemos pouco sobre fungos
Estimativas apontam entre 1,5 e 3,8 milhões de espécies de fungos no mundo. Apenas uma pequena fração foi descrita cientificamente, e só algumas centenas têm o genoma completamente decifrado.
Conhecemos vírus e bactérias muito melhor do que fungos - justamente o grupo que agora ganha impulso com a mudança climática.
Essa lacuna de conhecimento atrasa o desenvolvimento de vacinas e de medicamentos mais modernos. Em resposta, a Organização Mundial da Saúde colocou, em 2022, várias espécies de fungos - incluindo Aspergillus e Candida - numa lista de prioridades por representarem novas ameaças à saúde.
Sistemas de alerta precoce para nuvens de esporos
Pesquisadores defendem um monitoramento muito mais integrado. A proposta é combinar dados de diferentes áreas para rastrear fluxos de esporos quase em tempo real. Isso incluiria, por exemplo:
- sensores de qualidade do ar em cidades e em áreas rurais.
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